Pela primeira vez desde que a filha de 8 anos morreu em um assalto, a mãe da menina resolveu falar. "Acho que Deus me deu um anjo e eu tenho de ficar feliz por ele ter me deixado conviver com esse anjo por oito anos", disse a mãe de Gabriela Nunes Araújo, baleada na cabeça na terça-feira (19), em Rio Claro, a 173 km de São Paulo.

O enterro da menina foi sexta-feira (22). Ainda bastante abalada, a mãe não quer mostrar o rosto. "Ela não conseguia ver ninguém triste. Era muito feliz, muito amada, muito querida, bem-humorada, sensível, tudo", lembra a mãe.

O drama da família de Rio Claro começou no condomínio de luxo onde mora. Segundo a polícia, Gabriela foi assassinada por um jovem nove anos mais velho do que ela. Um rapaz de 17 anos que já tinha cometido um outro crime na cidade e foi libertado pela Justiça.

Eram 21h. Segundo a polícia, o menor e um outro jovem, de 18 anos, pularam o muro do condomínio, invadiram a casa e dominaram Gabriela, a irmã gêmea e a babá. Os pais das meninas estavam viajando.

Durante o assalto, o alarme disparou e o adolescente deu um tiro na cabeça da garota. Os ladrões fugiram em um carro roubado levando joias e dinheiro. No sábado (23), o menor foi encontrado em Dracena, a 500 km de Rio Claro. Segundo a polícia, ele confessou ter atirado em Gabriela.

Monstro

Para a mãe da menina, a confissão não diminui a dor dela. "Ele não merece ficar solto, não merece que outras pessoas passem pelo que eu estou passando. Eu acho que isso não é um rapaz, é um monstro. Não é um ser humano", afirmou a mãe.

Desde o dia do crime, moradores de Rio Claro fazem protestos contra a violência. Algumas manifestações são silenciosas. "Esse pano branco simboliza, para mim, um ato mais do que de protesto. Um ato de solidariedade com a família enlutada", disse a assistente social Mirlaine Zambuzi.

Gabriela estava no terceiro ano do Ensino Fundamental. Na escola, os colegas fizeram uma série de homenagens."Uma menininha, após a homenagem, chorava muito. ‘Tia, é que eu nunca mais vou ver a Gabriela’. Essa é a dor: a dor da perda, da separação", contou a coordenadora de ensino, Mônica Castro Ferreira.

"Era uma menina muito inteligente, muito criativa. Todo ano fazemos um pequeno concurso para o desenho que vai ilustrar o convite da festa junina, e este ano ela foi uma das ganhadoras. Ela nunca será esquecida", disse um professor.

Doações

A mãe de Gabriela explicou por que a família decidiu doar os órgãos da menina: coração, fígado, rins, pâncreas, pulmões e córneas. "Eu tinha visto essas reportagens do Fantástico (é uma série sobre transplantes). Vi quantas mães estavam sofrendo. Muitos amigos queridos conversaram comigo e eu decidi tomar essa decisão. Tenho certeza de que, se ela tivesse viva, se ela pudesse tomar essa decisão, a decisão dela seria essa. Ela doaria", afirmou a mãe.

Com problemas de saúde desde o nascimento, um menino de 6 anos foi quem recebeu o fígado de Gabriela. Segundo os médicos, ele passa bem. "Essa dor vai ser apaziguada só com o tempo, mas é um conforto, sim, você ver outra criança poder sorrir, como minha filha sempre sorriu", disse a mãe de Gabriela.

A mãe da menina - a criança teve a morte cerebral detectada na quinta (21) - fala sobre o futuro. "A minha preocupação é com a minha filha, que é uma criança tão alegre quanto [a Gabriela]. Vou ter de me dedicar muito à minha filha. Ela está bem. Criança é muito mais leve, não tem esse peso que a gente tem", comentou.

Mesmo assustada com a violência, a família de Gabriela não pensa em mudar de cidade. A mãe da menina conta que, neste momento, a solidariedade de parentes e amigos tem sido fundamental para suportar uma perda tão grande. "Eu sempre brincava com ela, que ela era um presente que Papai do Céu me deu. Mas eu não imaginava que esse presente ia durar tão pouco tempo", lamentou.

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