
A sensação de insegurança da população brasileira não está diretamente relacionada ao nível de investimento na segurança pública do país. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou ontem o estudo sobre segurança pública "Sistema de Indicadores de Percepção Social" em Brasília, que expõe diferenças claras de investimentos e números da violência entre as cinco regiões brasileiras. O estudo relaciona 2.770 entrevistas sobre medo e confiança na polícia. Os moradores da Região Sudeste, por exemplo, têm muito temor de ser assassinados e a segunda maior sensação de medo do país, mesmo tendo o maior investimento per capita no Brasil em segurança e a menor taxa de homicídios por 100 mil habitantes. Já o Sul, que tem pouco investimento, é a região com a menor sensação de insegurança. O levantamento foi feito com base em dados estatísticos de 2009. As entrevistas foram realizadas entre os dias 17 e 31 de maio de 2010.
"O maior investimento não retrata necessariamente a diminuição de medo. Mas sabemos que a criminalidade ocorre por diversos fatores. É claro que gastos com estrutura e efetivo têm efeitos sobre a taxa de violência", afirma o coordenador do estudo, Almir de Oliveira Junior.
A afirmação do pesquisador vai de encontro com as informações relativas à Região Nordeste. Lá, os moradores têm a maior sensação de insegurança do país: 85,8% dos entrevistados disseram ter muito medo de ser mortos. Ao contrário da Região Sudeste, o Nordeste é a região que menos investe em segurança no país. Para Oliveira, embora haja paradoxos nas comparações, uma coisa é certa: "A qualidade de vida não melhora também se a sensação de medo não diminui."
Na opinião do ex-comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, Rui César Melo, especialista na área de segurança, a sensação de medo da população está também relacionada à taxa de roubos. "Não acredito que a percepção da população esteja apenas ligada aos homicídios. Os roubos ocorrem muito mais", diz, contrariando a pesquisa. O estudo definiu o uso da taxa de homicídios para perceber a sensação de medo da população.
Para o ex-secretário de Segurança e Defesa Social de Minas Gerais, o sociólogo Luis Flávio Sapori, os dados da pesquisa revelam os desafios que devem ser enfrentados. "As regiões mais violentas ainda são regiões com alto índice de medo. São dados que revelam o grande desafio que as polícias têm pela frente", diz. Como Melo, Sapori acredita que mais investimentos são necessários, além de uma estratégia para combater a sensação de insegurança.
Sudeste
Minas Gerais e São Paulo, estados mais populosos do Sudeste, puxam a média de homicídios dolosos da região para baixo, com 7,1 e 11 mortes por 100 mil habitantes. De acordo com a pesquisa, o Espírito Santo teve um gasto per capita de R$ 200,67 em 2009. Os capixabas têm ainda a taxa mais alta de homicídios, 57,9 por 100 mil habitantes, menor apenas que a de Alagoas, no Nordeste, com 63,3. "Apesar do maior volume de notícias veiculadas nacionalmente sobre a criminalidade violenta ser referente aos estados do Rio e São Paulo, a Região Sudeste, não é, de fato, a mais violenta", conclui o texto da pesquisa. Na primeira parte da pesquisa, lançada em dezembro do ano passado, o Ipea relatou que nove entre dez brasileiros temiam ser vítimas de homicídio e assalto à mão armada ou ter a casa arrombada.









