
O ensino médio brasileiro é uma fonte de frustração. Não apenas por seu resultado pífio nas avaliações feitas pelo governo federal em dez estados houve regressão no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2009 a 2011, entre eles o Paraná , mas também pela condenação de milhares de jovens a uma perspectiva modesta de vida e por reduzir a capacidade de desenvolvimento do país. É na fase em que passam para a vida adulta, enquanto cursam o ensino médio, que os jovens que vencem as deficiências do ensino básico decidem sair da escola. Dos 90% que chegam ao fim do ciclo, uma parcela pequena tem os conhecimentos básicos exigidos para uma vida profissional promissora.
Segundo estatísticas do movimento Todos pela Educação, menos de 35% dos alunos do último ano do ensino médio atingiram o nível de conhecimento adequado em Português e Matemática para a série. Além disso, as notas do Ideb mostram que a média geral desta etapa é 3,7, enquanto a dos primeiros anos do ensino fundamental é 5. É com esse conhecimento que a maioria dos jovens encara o mercado de trabalho. "A escolaridade básica para o mercado hoje é o ensino médio. Se ele é comprometido, a capacidade de desenvolvimento do país também fica limitada", diz Nilson Vieira Oliveira, pesquisador de políticas públicas do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial.
Para os especialistas, o baixo desempenho pode, em grande parte, ser explicado porque o jovem não vê sentido em cursar o ensino médio e acaba, ao longo do caminho, dando prioridade ao trabalho. Os dados do questionário aplicado na Prova Brasil de 2009, exame que faz parte do cálculo do Ideb, mostraram que 60% dos estudantes da rede pública que iriam ingressar no ensino médio pretendiam trabalhar e estudar.
Durante a dupla jornada, as dificuldades são muitas. "A escola não fornece estrutura para isso. Faltam professores e mais bolsas do governo que ajudem a manter um estudante apenas na escola. Além disso, o currículo não é atrativo para o aluno, pois não ensina, por exemplo, a aplicar os conhecimentos na vida prática, como analisar um contrato de financiamento de um carro ou casa", diz o consultor educacional Renato Casagrande.
Falta de identidade
Embora a pontuação das particulares no Ideb tenha sido superior à das públicas, o desempenho da rede privada ficou praticamente estagnado nos últimos anos. Os estudantes das classes média e alta, que não teriam necessidade de trabalhar, historicamente encaram o ensino médio apenas como uma porta de entrada para a universidade. Ou seja, o aluno ingressa nessa etapa pensando que precisa memorizar os conteúdos para ser aprovado no vestibular.
Este é o caso da estudante do 1.º ano do Colégio Acesso Joyce Gabriele dos Santos de Souza, 14 anos. Pela primeira vez em escola privada após cursar todo o fundamental na rede pública, ela estuda com o objetivo de ingressar no ensino superior daqui a três anos. Embora suas notas tenham caído em relação às da etapa anterior, ela acredita que o conteúdo que aprende é focado para um bom desempenho no vestibular, que, independentemente do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ainda existe em muitas instituições do país. "Agora é muito mais puxado, requer mais concentração e mais responsabilidade porque meu desempenho agora vai refletir lá na frente, na conquista do curso superior", avalia.
Modernizar o currículo é uma das saídas
Por causa do baixo desempenho do ensino médio no Ideb 2011, o governo federal retomou a proposta de alterar o currículo dessa etapa e dividir as 13 disciplinas obrigatórias em grandes áreas. O debate, que começou em 2011 pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), sugere a mudança baseada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que está dividido em quatro grupos: Matemática, Linguagens, Ciências Humanas e Ciências da Natureza.
O consultor educacional Renato Casagrande diz que a ideia é uma boa alternativa, desde que venha acompanhada de uma melhor formação dos professores. "Não adianta mudar currículo sem professor que dê conta de ensiná-lo. Pelo menos um curso de capacitação para os docentes precisa ter."
Escolha
Em países com bons modelos desta etapa do ensino, como nos Estados Unidos, por exemplo, o aluno pode escolher algumas disciplinas que quer cursar e assim focar na área de interesse. Para Casagrande, essa seria uma boa medida para se adotar aqui, como forma de aumentar o interesse pelo conteúdo.
Porém, para a professora do Departamento de Educação da Universidade de Campinas (Unicamp) Márcia Malavasi, de nada adianta uma mudança curricular sem alteração de estrutura, tanto de espaço físico como de corpo docente, e ajuda financeira para que o estudante não precise abandonar a escola para trabalhar. "Mesmo que o interesse aumente, se ele não tiver dinheiro para fazer o percurso entre casa, trabalho e escola, não adianta".



