Amélia não queria ser "mulher de verdade". Queria ser médica, apesar da vida jogar contra desde o início: negra, pobre, segunda filha de uma família de seis irmãos, nascida em Jardim Alegre, distrito de Ivaiporã, Amélia de Souza Barbosa, hoje com 56 anos, foi retirada da escola pelo próprio pai assim que aprendeu a ler.
Mesmo assim, ela não desistiu. "Aos 17 anos, uma professora me convidou para ir morar com ela na cidade. Eu ajudaria na casa e poderia voltar a estudar", conta. O pai morreu antes dela ir embora. "Minha mãe não deixou eu sair de casa", conta.
Casou aos 19 anos, pressionada pela mãe. Uns três meses depois, quando já estava grávida da primeira filha, Maria Aparecida, o sonho da medicina resvalou novamente na vida dela: "Um dos meus irmãos ficou muito doente, tive que levá-lo a Faxinal, e fiquei com ele no hospital durante uns 15 dias". Nesse período, a moça conheceu um médico, e comentou com ele sobre a vontade de ser médica. "Ele me convidou para ir morar lá, disse que arrumaria um emprego para mim e para o meu marido, e assim eu poderia voltar para a escola", revela.
O marido não aceitou a proposta e nos dois anos seguintes, outros dois filhos nasceram Elzira e Sérgio. Em fevereiro de 1974, o marido de Amélia resolveu tentar a vida em Curitiba, e começou a trabalhar como pedreiro. Ela, por sua vez, tornou-se varredora de rua seu primeiro emprego remunerado.
Todo dia ela ia trabalhar com o coração apertado, porque deixava os filhos trancados em casa. Maria Aparecida, então com 5 anos, cuidava dos irmãos, que tinham 4 e 3 anos. "Eles foram criados como porco. Eu misturava a comida toda na panela, ensinei a Cida a ligar o fogão, e deixava pão e algumas bolachas pela casa", diz. "Às vezes, ficava aflita, chorava muito, mas só podia rezar para que eles ficassem bem até eu voltar."
A família morava então em um barraco na favela do Parolin, lugar que Amélia define como um "inferno": "Eu odiava aquilo. Era tudo sujo, cheio de lixo, sem falar nos roubos, prostituição, tráfico de drogas, polícia... como eu ia criar meus filhos num lugar horrível desses?", questiona.
Depois de sair da favela e pedir demissão, o passo seguinte foi procurar uma agência de empregos, por onde Amélia chegou a um casal de holandeses os primeiros patrões da sua carreira como doméstica, iniciada em abril de 1975. "Eles eram muito bons, me tratavam quase como filha", define. "Só saí de lá porque eles voltaram para a Holanda."
Trinta anos se passaram, e Amélia nunca mais deixou a atividade doméstica. Foi empregada mensalista, diarista, passadeira, e quase todas as atividades afins. Diz já ter sido contratada por mais de cem pessoas, e hoje trabalha em duas residências, com registro em carteira, e ganha aproximadamente R$ 600 somando os dois salários.
As mágoas que carrega são poucas: basicamente histórias de racismo ("fui trabalhar numa casa em que a mulher me explicou que o filho dela não beberia num copo que eu tivesse segurado") e desconfiança ("deixavam dinheiro espalhado pela casa para me testar").
Conseguiu comprar um terreno em Colombo, construiu sua casinha, despachou o marido depois de 20 anos, criou os filhos (Sérgio, 34 anos, faz serviços gerais, Cida, 36, trabalha numa imobiliária e Elzira, 35, seguiu os passos da mãe) e hoje já tem quatro netos. Se não chega a se orgulhar da sua profissão, também não se envergonha: "O trabalho não importa, desde que seja uma vida digna. Sou feliz, tenho minha família e vivo em paz com as pessoas e comigo mesma." E o sonho de ser médica? "Minha chance deve estar voando por aí até hoje."



