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História

Morador lembra era de ouro da CEU

Um prédio imponente e acolhedor, novo, bem iluminado, limpo, com uma estrutura invejável à disposição dos moradores, que pagavam uma mensalidade equivalente a 25% do salário mínimo: posto de saúde, clínica odontológica, biblioteca, bazar, barbearia, sapataria, salão de baile, bar e lanchonete, restaurante com três refeições diárias, e até um pequeno banco – na verdade uma cooperativa que fazia empréstimos a juros baixos. Sem falar na fazenda em Antonina, na chácara em Pinhais e nos veículos – um automóvel e um caminhão.

Assim era a Casa do Estudante Universitário de Curitiba (CEU) quando Alcebíades dos Anjos, então com 18 anos, foi se candidatar à vaga de porteiro que viu em um anúncio da Gazeta do Povo do dia 4 de novembro de 1959. E é isso que torna a saudade tão dolorida para ele, que desde então foi testemunha da ascensão e queda da maior residência de estudantes da América Latina – cuja famosa sede da Rua Luiz Leão completa 50 anos hoje.

Efervescência

"Isso aqui era uma beleza, tinha de tudo", relembra ele, que menos de um mês depois assumia como encarregado da lavanderia – cargo que ocupa até hoje. "O restaurante era um dos melhores da cidade, servia comida boa e barata, tanto que o general Juarez Távora, que integrou a Força Expedicionária Brasileira, fez questão de almoçar aqui numa de suas passagens por Curitiba", recorda. Ele menciona ainda o bazar, "onde os estudantes podiam comprar roupas de qualidade", a biblioteca e o salão de festas. "Os melhores bailes de Curitiba na década de 60 ocorriam no nosso salão, onde tinha até concurso de miss", conta

Seu Alcebíades enumera algumas das personalidades que passaram pelo salão da CEU: "Teve a Inezita Barroso, o Gilberto Gil, que falou durante uma hora e pouco depois que voltou do exílio, o Paulinho Nogueira e comediantes como Ary Toledo e José Vasconcelos". O morador mais antigo fala ainda da efervescência da época. "O pessoal se reunia para discutir política, organizava torcidas quando tinha jogo de futebol, assistia a peças... ninguém precisava sair daqui para se divertir."

Decadência

Dois fatores foram decisivos para a decadência, na opinião de seu Alcebíades: a intransigência política e o relaxamento nos costumes. "Cada vez que algum candidato ou político se propunha a ajudar a casa, eles (os moradores) falavam mal, rasgavam faixas e cartazes, e a ajuda não vinha", explica. "Além disso, era rigorosamente proibida a entrada de mulheres, e como o padre Gustavo (Henrique Pereira Filho, ex-capelão morto na semana passada) morava aqui, a CEU era muito bem vista." O padre deixou a casa quando o estatuto passou a autorizar visitas femininas.

Ele também acusa o desinteresse dos atuais moradores. "Hoje a mão-de-obra estudantil é muito fraca, pouca gente se dispõe a ajudar." E quais os primeiros pontos de um projeto de recuperação? "Em primeiro lugar uma reforma elétrica e hidráulica e uma solução para a inadimplência."

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