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Moradores tentam tirar travestis do Rebouças

Há pelo menos dez anos, moradores do bairro Rebouças, em Curitiba, vêm vivendo duas realidades diferentes. De dia, desfrutam de uma das regiões mais pacatas da cidade, uma zona residencial com ruas planas e arborizadas. A transformação começa com o cair da noite: é quando as ruas são ocupadas por travestis e seus clientes, que na maioria das vezes ocupam carros de luxo.

Na última terça-feira, moradores da região e integrantes do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) do Rebouças fizeram a primeira reunião do ano para discutir o assunto. Em 2006, eles sugeriram que as travestis se transferissem para a Rua Dario Lopes, na divisa com o Jardim Botânico. Mas a proposta foi recusada pelos profissionais do sexo e por organizações não-governamentais, por se tratar de um lugar deserto. A tática agora é contar com a ajuda da Polícia Militar para conter os excessos.

Excessos que, segundos os moradores, são constantes por parte dos travestis. "Xingam, atiram pedra nos carros, urinam e defecam nas portas das casas", diz o técnico em eletrônica Sérgio Pinheiro, 54 anos. "Começa por volta das 20 horas e não tem hora para acabar. Já deixaram até preservativos usados na maçaneta da minha porta." São comuns os relatos de moradores que presenciaram cenas de sexo na rua. "Fazem de tudo, sem se preocupar", revela uma moradora que pediu para não ter o nome revelado.

Segundo a técnica contábil Ana Bonadimam, 45, a situação tem desvalorizado os imóveis. "Ninguém se interessa em investir por aqui", afirma. Ana já presenciou uma situação constrangedora. "Certa vez, faziam um velório em um prédio. A família toda reunida e as travestis fazendo festa na rua." Relatos de tiroteios e consumo de drogas também são comuns.

Na vida

Nesta semana, a reportagem esteve duas noites no Rebouças. Pelo menos 30 travestis faziam ponto em cinco ruas: Piquiri, Rockefeller, Santo Antônio, Baltazar Carrasco dos Reis e Almirante Gonçalves. Diante da informação de que os moradores querem que deixem o local, são categóricos: não saem. "Não fazemos nada de errado", diz um deles.

Três travestis confirmaram o preço dos programas: R$ 20 o sexo oral e R$ 50 o completo. Tudo junto, R$ 70. Os preços são "tabelados". "Senão vira bagunça", comenta um deles. "Pelo menos 90% dos homens que vêm aqui são passivos." O movimento de carros é intenso. Em certas ruas, fazem até fila. "É só carrão e as pessoas parecem distintas", diz a autônoma Eloína Oliveira, 40, moradora do bairro. "Já vi um fusquinha que não conseguiu nada."

Para evitar confusões com moradores, a ONG Transgrupo Marcela Prado elaborou um Código de Ética das Travestis. Entre as recomendações estão não usar drogas e armas, não brigar com moradores e policiais, acertar os preços dos programas com antecedência e não tirar as roupas na rua. "Lugar de trava azueladeira (ladra) é na cadeia", diz o código. "Não defendemos a prostituição, mas o direito delas se prostituírem", afirma a presidente da ong, a transexual Carla Amaral. "O que sobrou para elas foi a prostituição, porque o outro lado virou as costas."

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