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| Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo

Dor muscular, febre alta, manchas avermelhadas pelo corpo e diarreia. Em São João do Caiuá, município de 6 mil habitantes no Noroeste do estado, é difícil encontrar alguém que não tenha um amigo ou familiar que tenha apresentado os sintomas típicos da dengue nos últimos tempos. Entre agosto de 2014 e 28 de fevereiro deste ano, o município teve 277 casos confirmados da doença e 857 notificados. Uma incidência 4,544,70 por 100 mil habitantes -- o tolerado pelo Ministério da Saúde é de 100 doentes a cada 100 mil. Isso coloca a cidade em situação de epidemia.

Febre chikungunya é um risco iminente para o estado

O nome é estranho e a doença parece ainda estar longe da realidade dos estados do Sul do Brasil, mas a febre chikungunya é um risco iminente para o Paraná. Transmitida da mesma forma que a dengue, através da picada do mosquito, a chikungunya tem dois vetores. Além do Aedes aegypti, o Aedes albopictus também transmite a doença.

Esse mosquito é mais comum em áreas de mata e tolera bem as temperaturas mais baixas. Para piorar, está presente no estado. Só em Curitiba, nos dois primeiros meses do ano, foram localizados 221 focos do Aedes albopictus.

“É uma situação que possibilita que o vírus da chikungunya chegue aqui no Paraná”, afirma a virologista Cláudia dos Santos, da Fundação Carlos Chagas, braço da FioCruz no Paraná.

Conhecida na África desde a década de 1950, os primeiros casos autóctones foram registrados no Brasil no ano passado. Em pouco tempo, a doença se tornou uma epidemia em cidades do Norte e Nordeste.

Em todo o país, no ano passado, foram 2.768 casos autóctones confirmados, segundo dados do Ministério da Saúde. Só em Feira de Santana, na Bahia, foram 1.208 – entre confirmados e ainda investigados.

Também há registros no Amapá, em Minas Gerais, no Distrito Federal, em Roraima e no Mato Grosso do Sul. O que mostra um avanço rápido do vírus da Febre chikungunya pelo país. “Ele se dispersa rápido porque é transmitido por um mosquito que está presente em todos os grandes centros urbanos da américa. Para piorar, também é transmitido pelo Aedes albopictus, que é amplamente distribuído no Brasil”, explica Cláudia.

No Paraná já foram registrados sete casos importados da doença. A superintendente de Vigilância em Saúde do Paraná, Eliane Chomatas, afirma que o estado está atento a essa situação e reforça a necessidade de se combater os vetores da doença.

“É preciso evitar que o mosquito se prolifere. Por isso, todo acúmulo de água que fique parado deve ser eliminado”, recomenda a superintendente.

Outros nove municípios do Paraná enfrentam o mesmo cenário. São eles: Marilândia do Sul, Uraí, Itaúna do Sul, Loanda, Paranapoema, São Pedro do Paraná, Rio Bom,Jataizinho e Riacho Alegre do Oeste. Em todo o estado, 111 cidades registraram casos autóctones de dengue entre agosto do ano passado e o fim de fevereiro de 2015. De acordo com boletim divulgado pela Secretaria de Saúde na quarta-feira (11), foram 1.798 casos confirmados no estado no período -- dos quais, 1.660 tiveram origem no Paraná.

O número é inferior ao do mesmo período do ciclo 2013/2014. Entre agosto de 2013 e o fim de fevereiro do ano passado, foram registrados 2.477 casos autóctones no estado. Isso não quer dizer que o controle neste ano esteja mais eficaz. “Tivemos um dezembro menos chuvoso do que em 2013, então, o aumento na curva [epidemiológica] pode apenas ter sido postergado. Como temos a situação no interior de São Paulo [que vive uma grave epidemia de dengue], estamos em alerta”, afirma a superintendente de Vigilância em Saúde do Paraná, Eliane Chomatas.

A Regional de Saúde de Paranavaí (Noroeste do estado) foi a que registrou o maior número de doentes: 651 no total. Em Loanda, a cerca de 80 quilômetros de Paranavaí, um homem morreu em fevereiro vítima da dengue. Foi a segunda morte registrada por causa da doença. A primeira foi justamente em São João do Caiuá. No fim de janeiro, Maria Aparecida Santos, de 66 anos, morreu vítima da dengue.

“Ela tinha umas complicações de saúde, mas na certidão de óbito está escrito dengue”, comenta a operadora de caixa de supermercado Rosângela Tertuliano, que era vizinha de Maria. A própria Rosângela também pegou a doença. Além dela, no mercado em que trabalha em São João do Caiuá, outras duas pessoas tiveram dengue. “Eu fiquei uma semana doente, depois minha colega e por fim o meu patrão. Aqui, cada família teve, pelo menos, um caso”, diz.

O empresário Valentim Vassoler é outra vítima da doença. “Passei uma semana em que não prestava para nada. Bastante gente que eu conheço ficou doente também”, comenta. A enfermeira chefe da emergência do hospital da cidade, Rosana Fonseca, conta que são feitos de 5 a 10 atendimentos por dia de pacientes com dengue.

Segundo ela, a expectativa é que a situação melhore no fim de abril, quando a chuva e o calor, combinação que favorece a proliferação do A edes aegypti, deve diminuir. Desde o começo do ano, a região de Paranavaí aparece com risco alto de proliferação do mosquito no mapa desenvolvido pelo Laboratório de climatologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Combate

Segundo a Secretaria de Saúde, foram enviados fumacês e borrifadores de inseticida para os municípios mais atingidos pela dengue. As cidades também receberam reforços de medicamentos usados no tratamento dos sintomas da doença -- principalmente soro fisiológico, importante para a hidratação do doente.

Mas nessa briga a população precisa ajudar. É preciso evitar os pontos de água parada. A regra já é batida, mas a cada surto da doença fica claro que ela ainda não virou uma prática de todos. “Se cada um fizer a sua parte, tem como controlar a proliferação do mosquito. Mas a população tem que tomar essa responsabilidade para si”, alerta Eliane.

Então, nada de manter pratinhos com água para as plantas ou acumular materiais reciclados em local aberto. As piscinas e ralos também são focos de proliferação do mosquito. Logo, é preciso sempre verificar esses locais.

Vale também cobrar dos vizinhos. “Na minha casa não encontraram nenhum foco do mosquito, mas a umas duas quadras de lá, sim”, comenta Rosângela, que demorou quase um mês para se recuperar completamente da doença. “Olha, depois de adoecer, eu passei a ter pavor de mosquito”, diz a operadora de caixa.

Número de focos de mosquito aumenta quase 300% em Curitiba

Calor e chuva. A combinação meteorológica que marcou o verão curitibano neste ano também ajudou a ampliar o número de focos do mosquito transmissor da dengue nos dois primeiros meses de 2015. Entre janeiro e fevereiro, as equipes da prefeitura registraram 107 focos do Aedes aegypti na cidade – a maior parte deles nas áreas próximas à Linha Verde. No mesmo período em 2014 foram apenas 28 focos encontrados. Um aumento de quase 300%.

Segundo a coordenadora do Programa Municipal de Controle da Dengue, Juliana Martins, as condições climáticas das últimas semanas colaboraram para isso. “Tivemos um começo de ano muito quente e chuvoso e isso influenciou no ciclo do mosquito”, diz Juliana. O último boletim do Laboratório de Climatologia da UFPR, referente à semana de 22 a 28 de fevereiro, indicava risco climático médio para a infestação do Aedes aegypti em Curitiba.

Apesar do aumento do número de focos localizados, Curitiba ainda não registrou nenhum caso de dengue de origem local. De agosto de 2014 até fevereiro deste ano, a 2.ª Regional de Saúde, na qual está a capital, registrou 10 casos confirmados, todos importados. Porém, mesmo pequeno, o número é um alerta. Basta o Aedes aegypti picar alguém com a doença e depois uma pessoa saudável para o vírus começar a circular na cidade.

Juliana explica que, para evitar que isso aconteça, sempre que um caso é notificado é feito uma bloqueio de transmissão. Em um raio de 150 metros do local em que está o doente, é feita uma varredura para eliminar os criadouros do mosquito. Atualmente, três equipes municipais trabalham no combate ao vetor da dengue. Além delas, os agentes comunitários de saúde também fazem o combatem os focos do Aedes aegypti. No ano passado, cerca de 500 mil imóveis foram visitados.

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