Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
Segundo a pesquisa, latas de cerveja e refrigerante são usadas por 52% dos usuários de crack para fumar a droga | Bruno Kelly/ Reuters
Segundo a pesquisa, latas de cerveja e refrigerante são usadas por 52% dos usuários de crack para fumar a droga| Foto: Bruno Kelly/ Reuters

Saída

Maioria dos viciados quer parar; apenas 7% busca ajuda

O pouco acesso a serviços e à prevenção de doenças transmissíveis também foi verificado pelo estudo da Fiocruz. Enquanto 78,9% dos usuários relataram a vontade de buscar tratamento, menos de 7% procuraram um Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) e menos de 5% buscaram uma comunidade terapêutica. Outro dado preocupante é sobre o uso de preservativos. Quase 40% dos entrevistados não utilizaram preservativo nas relações sexuais vaginais que tiveram nos 30 dias anteriores à entrevista.

E o conjunto dos usuários entrevistados apresentou taxas mais elevadas de doenças transmissíveis por sexo desprotegido ou por instrumentos cortantes. Enquanto a taxa geral de HIV na população brasileira é de 0,6%, entre os usuários foi medida em 5%. A hepatite C também aparece como mais frequente: 2,6% enquanto a taxa nacional é de 1,38%.

O trabalho foi feito com base em dados coletados em 2012 com 25 mil residentes nas capitais. As pessoas foram visitadas em suas casas e responderam a perguntas sobre suas redes sociais. De acordo com a Fiocruz, esse é o maior e mais completo levantamento feito sobre crack no mundo.

Epidemia

Para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a pesquisa revela a gravidade do problema do crack no Brasil, classificado por ele como uma epidemia. Segundo ele, isso reforça a importância de estados e municípios colaborarem na execução de políticas públicas de combate à droga. "Precisamos expandir ainda mais os serviços, e essa parceria é fundamental. São R$ 2 bilhões disponíveis e nós precisamos muito dessa parceria para que esses serviços cheguem à ponta", disse o ministro. Já o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, defendeu punição aos traficantes e apoio do Estado aos usuários.

Interatividade

Qual a melhor forma de combater o consumo de crack e outras drogas: repressão ou tratamento? Por quê?

Leia as regras para a participação nas interatividades da Gazeta do Povo.

Deixe seu comentário abaixo ou escreva para leitor@gazetadopovo.com.br

Leia as regras para a participação nas interatividades da Gazeta do Povo.

As mensagens selecionadas serão publicadas na Coluna do Leitor.

As capitais do país reúnem 370 mil usuários regulares de crack ou similares (pasta base, merla e oxi). O contingente representa 35% do total de usuários regulares de drogas ilícitas – com exceção da maconha –, estimado em 1 milhão nas capitais. As capitais do Nordeste do país concentram 40% dos usuários regulares de crack.

INFOGRÁFICO: Confira o número de usuários de crack e similares pelo país

É o que aponta a maior pesquisa já feita no país sobre o tema, divulgada ontem. Foram dois estudos realizados pela Fiocruz, sob encomenda da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad): um que faz estimativas sobre o número de usuários nas capitais do país e um segundo que traça um perfil do dependente de crack, desta vez em âmbito nacional.

No recorte regional, o levantamento aponta o Sudeste como a segunda região com o maior número absoluto de usuários de crack, com 30% do total. Em seguida, vêm o Centro-Oeste (13%), o Sul (10%) e o Norte (9%).

O estudo mediu o uso do crack por menores de 18 anos. Dos 370 mil usuários regulares, 13% são crianças e adolescentes. E sua proporção, entre os usuários estimados, também é maior na Região Nordeste – quase 20% do total de usuários contra 13,5% da média nas capitais.

O segundo estudo procurou determinar o perfil dos usuários de crack e drogas similares no país como um todo, incluindo cidades de pequeno e médio porte, regiões metropolitanas e capitais.

Esses dados foram colhidos entre o fim de 2011 e o junho de 2013, entre 7.381 usuários da droga. Testes de HIV e hepatite C também foram feitos.

De acordo com o estudo, 78,7% dos usuários de crack são homens, 80% são "não-brancos" (pretos, pardos e amarelos), 41,6% informaram ter sido detidos no ano anterior. Em termos de educação, 55% completaram a 8.ª série do ensino fundamental e somente 3% chegaram ao ensino superior.

O perfil do uso indica que 55% utilizam a droga diariamente. O consumo se estende há 7,6 anos na média nas capitais e há 4,9 anos nas demais cidades. O estudo identificou que os usuários de crack fazem uso frequente de outras drogas lícitas e ilícitas, como tabaco, álcool, maconha e cocaína.

Mulheres

O perfil sobre os usuários regulares faz um retrato cruel da situação das mulheres dependentes do crack. Cerca de 10% informaram que estavam grávidas no momento da entrevista e 46,6% disseram ter engravidado pelo menos uma vez desde que começaram o uso da droga.

Das entrevistadas, 44,5% relataram já ter sofrido algum tipo de violência sexual. E cerca de 30% informaram que trocam dinheiro ou drogas por sexo.

Curiosidade é a porta de entrada

Seis em cada dez usuários afirmam que a vontade e curiosidade de experimentar a droga como o motivo fundamental para o início do uso do crack. Cerca de 30% indicaram como causa perdas afetivas, problemas familiares e violência sexual. O fato de o crack ser mais barato não se mostrou como motivo central para o início do uso da droga: apenas 2% afirmaram que essa era a causa.

Para os autores do estudo, os achados apontam a necessidade de se reforçar laços familiares, facilitar a ressocialização do usuário e reforçar as medidas preventivas, sobretudo nas escolas.

Tratamento

O estudo indica que quase 80% dos usuários (78,9%) desejam se tratar. Apesar da disposição, o trabalho mostra um baixo acesso aos serviços: 20% disseram ter procurado posto de saúde e 17,5%, alimentação gratuita nos 30 dias que antecederam a pesquisa. De acordo com o trabalho, 6,3% procuraram os Caps-AD (Álcool e Drogas), centros de apoio ao usuário.

Outro ponto ressaltado pelos pesquisadores é o tempo médio de uso da droga. Nas capitais, a média é de oito anos e nos municípios, cinco. Um achado que contradiz a ideia comum de que usuários têm sobrevida inferior a três anos de consumo.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]