
Os motivos que levam o jovem a consumir drogas e as características que elas imprimem no seu comportamento levaram o psicológo e psicoterapeuta Menyr Antônio Barbosa Zaitter, 52 anos, a produzir o seu terceiro livro sobre o tema da drogadição entre os adolescentes, Fabrica-se ou não um toxicômano. O autor conta que, há 25 anos, os pais que chegam ao seu consultório sempre trazem a mesma história: "Meu filho usa drogas. Qual o motivo e o que eu posso fazer para ajudá-lo?
O livro de Zaitter tem 2 mil entrevistas, mas o foco principal é a vivência de cinco casais curitibanos e seus filhos adolescentes. O contato do psicólogo com as famílias, todas de classe média, ocorreu em sessões de terapia em grupo. "É preciso colocar limites primeiro nos pais para depois tratar dos filhos. Os pais devem observar mais seus filhos, para evitar que o uso da droga seja um substituto do afeto", afirma o autor, ao justificar a necessidade da terapia em grupo. Veja os principais trechos da entrevista:
Como surgiu a ideia para o terceiro livro?
Buscando a referência do psicólogo americano John Watson, voltamos à questão do século 19, quando se falava que a aprendizagem era um processo de visão daquilo que você está buscando com a observação. Dessa forma, passei a entender que as mudanças de comportamento do adolescente viciado em drogas não estavam adequadas. Busquei dentro da origem familiar e o que elas representam. No primeiro contato, havia a ojeriza do atendimento familiar. Para que os filhos, então, fossem atendidos não abri mão do atendimento familiar também. Durante um ano, eles vinham para a terapia de grupo semanalmente. O combinado era: não pode faltar. Se houvesse real necessidade, só deveria faltar um membro da família.
E o que descobriu?
A patologia das famílias era o uso de anorexígenos por parte das mães, o uso do álcool pelos pais de forma social, na concepção deles, mas, na realidade, todo dia. "Vou fazer meu churrasco e faço uma caipirinha em um caneco enorme", era comum ouvir. E também o álcool presente na mãe em menor grau, enquanto ela cozinhava. A justificativa é que era só para dar um estímulo. Foi daí que surgiu o estigma burilado desde 2005. O universo é extenso, porque hoje estou voltado ao trabalho. Em todas as pesquisas realizadas, vê-se que o adolescente não tem problemas, afinal ele tem liberdade para tudo. Porém o adolescente viciado é normalmente educado em meios familiares conturbados, seja pela ruptura ou por desentendimentos dos pais; morte ou pelo uso de drogas de um deles. É carente afetivo. A mãe é, na maior parte das vezes, hiperansiosa, protetora e movida pela culpa. O filho estabeleceu uma relação de dependência com a mãe. O pai é um ser ausente, seja por omissão ou pela interação de uma mãe demasiadamente presente, privando a criança de modelos de identificação necessários ao seu desenvolvimento.
O que mudou nesses 25 anos de pesquisa?
A droga em si e as motivações. Em 1984, 75% dos usuários de drogas tinham motivações emocionais, contra 46% em 1994. Com o surgimento do crack e seu uso disseminado entre camadas mais altas, a curiosidade também aumentou. De 15% (1984) passou para 32% (em 1994).
Historicamente, por que houve essas mudanças tão drásticas?
Apareceram as drogas maiores. Passamos da maconha (que ainda é consumida em larga escala) para o crack e drogas sintéticas usadas em situações específicas, como as baladas. Agora, começa-se a repensar o papel da família nesse assunto. Discriminar o usuário é uma forma correta, mas liberar, não. O uso está cada vez mais cedo. Tem casos de crianças de 9, 10, 11 anos que já são viciadas sem que haja uma formação biológica do organismo.
Como reconhecer o usuário?
A maconha deixa o sujeito mais devagar. Alterna a sonolência, com a excitação. O que ele mais quer é curtir o que está a sua volta, sem se preocupar com o futuro. Começa na adolescência e persiste na fase adulta. A sociedade está repleta de pessoas que usam maconha. A cocaína, por outro lado, é mais elitizada. Rola entre intelectuais que se acham e atinge uma faixa etária mais velha. Ela motiva o usuário a querer conseguir sempre mais. Ele entra em uma paranoia. Já o crack, hoje está massificado. Antes era somente encontrado em classes mais baixas e hoje ele frequenta a classe alta.
Os casos ocorrem em famílias desestruturadas?
Há de se pensar o que é família estruturada. Eu posso ter um casal que tenha um filho cuidado por uma babá e que não tenha sido amamentado porque a mãe tinha feito uma plástica nos seios. Estão juntos, mas pode-se dizer que seja um núcleo estruturado? É inevitável pensar na qualidade e na quantidade de tempo que se dispõe para os filhos, até porque vemos hoje a co-relação do alcoolismo dos pais, por exemplo, com outros abusos como o jogo, o excesso de fumo, de tempo disponível para prática de esportes (os viciados em esportes) e pelo trabalho.



