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O homem que inventou o curso supletivo

Professor paranaense criou o primeiro curso que permitia encurtar o tempo para vencer uma etapa de ensino

  • Andréa Morais
Anízio Alves da Silva, 83 anos: impedido de cursar uma universidade, ajudou muitos a retomarem os estudos |
Anízio Alves da Silva, 83 anos: impedido de cursar uma universidade, ajudou muitos a retomarem os estudos
 
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O homem que inventou o curso supletivo

O professor Anízio Alves da Silva, de 83 anos, gosta de se apresentar como um pioneiro. Ele integrou a primeira turma formada no ginasial de Londrina; esteve entre os formandos do primeiro grupo do colegial do atual Colégio Estadual do Paraná, em Curitiba; e foi o vendedor da primeira Frigidaire adquirida por dona Hilda – ou seria a primeira geladeira do Norte do estado, o que é difícil saber, já que a memória, por vezes, não ajuda mais.

Mas foi só depois de perder a chance de tornar-se engenheiro e de ingressar no magistério “por acaso”, como ele mesmo diz, que esse paranaense entrou para a história da educação brasileira como um verdadeiro empreendedor. Ele foi o “inventor” do supletivo, sistema de ensino hoje conhecido como EJA (Educação de Jovens e Adul­­­tos), que em 2009 tinha 4,6 milhões de alunos matriculados, segundo dados do último censo escolar.

O ano era 1966. O miniginásio, posteriormente Liceu Mário de Andrade, deu oportunidade para um número incontável de pessoas de retomarem os estudos. Em apenas um dos quase dez anos de funcionamento da escola, foram 1,7 mil estudantes. Antes disso, porém, Anízio percorreu um longo caminho.

Nascido em Avaré, no Norte do estado, ele se mudou para Londrina aos 10 anos, três anos depois da fundação da cidade. O pai tinha uma olaria e os filhos seguiam o ofício. Mas ele queria mais. Queria ser engenheiro. Para isso era preciso estudar muito – especialmente para uma família de classe média baixa. Como faltava curso colegial em Londrina, Anízio mudou para Curitiba pela primeira vez. Empenhou-se muito e logo estava pronto para prestar o vestibular na Universidade Federal do Paraná, com excelentes chances de aprovação, como um ótimo aluno do científico. O concurso, porém, exigia que os candidatos se submetessem a exames do pulmão e o resultado revelou uma mancha. O medo da tuberculose, naquele tempo, fazia com que quem apresentasse esse quadro fosse automaticamente eliminado.

De volta a Londrina, ele se dedicou a vários outros ofícios – entre eles o de vendedor de geladeira, embora não tivesse um aparelho em casa. Foi quando o destino colocou em seu caminho a professora Lydia Scheffer, a companheira de 52 anos. Ela era a única docente (também diretora e secretária, entre outras funções) da escola regional de São Jorge do Ivaí, na região de Maringá. Ministrava todas as disciplinas, do Francês a Geografia e Matemática. Ganha­­va bem, é verdade: “No fim do mês, voltava para casa com os braços cheios de dinheiro, pois recebia por todos os professores de uma escola”, recorda Lydia, aos 81 anos. Mas não estava mais conseguindo dar conta do recado. Diante da dificuldade de encontrar professores formados, alguém lhe disse que Anízio era ótimo em matemática. Contratou o futuro marido (na época só um colega de trabalho) para essas e outras disciplinas da área de Exatas.

Tempos depois, os dois se casaram, fizeram o exame de mil horas – pela qual quem cumpria a carga horária no magistério ganhava certificado de equivalência ao curso superior – e foram trabalhar na rede pública estadual de Londrina. Mas o espírito empreendedor começava a desabrochar em ambos, que queriam fazer diferente. Eles aplicavam o famoso exame de Madu­­reza – um teste para quem estava atrasado nos estudos e tinha a chance de certificação, semelhante ao Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) de hoje. “O problema é que as pessoas iam fazer esse teste sem nenhum preparo e a maioria reprovava [90%, segundo documento da época]”, conta Anízio. Foi então que ele resolveu criar o Curso Prepa­­ratório para a Madureza.

A ideia

Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1961, Anízio leu algo que lhe inspirou: a LDB exigia 150 dias letivos (215, portanto, eram ociosos) para cada série ginasial, mas não falava que esse período tinha de ser dentro de um ano civil. A partir disso, o professor de Matemática fez cálculos e concluiu que era perfeitamente possível cumprir o currículo de quatro anos em dois anos e meio, o que poderia ajudar muitos jovens e adultos que não conseguiram estudar na época certa a recuperar o tempo perdido. Ninguém em todo o país tinha pensado nisso ou se empenhado para criar o que mais tarde passou a ser chamado de supletivo.

O professor tinha disposição de sobra para assumir esse desafio. Colocar a proposta em prática, entretanto, não foi nada fácil. Foram necessários dois anos de trabalho – de cumprimento de tramites burocráticos e de viagens a Curitiba e Brasília – até que os conselhos Estadual e Federal ficassem convencidos de que a ideia era viável. “Havia grande resistência em mudar o sistema, ainda mais porque a iniciativa partia de uma instituição particular de ensino”, relata o jornalista Antônio Claret de Rezende, amigo de Anízio há 50 anos e que acompanhou toda a luta do professor para a criação do curso.

Engana-se quem julgava que a qualidade da educação ficou comprometida no supletivo – pelo menos não na escola de Anízio. Ao contrário do que ocorre hoje, quando as aulas presenciais não são regra no modelo, naquela época, todo o conteúdo era passado em sala de aula. Para isso, o período de férias era o menor possível e os estudantes tinham aulas todos os sábados, em período integral. “Na escola, nós tínhamos até uma cozinha, onde explicávamos, na prática, as propriedades nutritivas dos alimentos. Hoje isso é comum, mas na época era novidade”, conta o professor.

O Ginásio Supletivo de Lon­­drina abriu caminho para todos os outros cursos similares que rapidamente se proliferaram Brasil afora e que, pouco a pouco, tiveram seu perfil modificado com o objetivo de promover cada vez mais a inclusão educacional dos brasileiros – mesmo que ao preço de uma qualidade inferior. A concorrência – in­­­clusive com a rede pública – fez com que o miniginásio falisse e fosse vendido, na segunda metade dos anos 70. Depois disso, Anízio e família voltaram para a sua segunda temporada em Curitiba, até a aposentadoria, há quase três décadas. Ele e a esposa também moraram no litoral do estado, até que problemas de saúde os fizeram voltar à capital, agora em definitivo, há dois anos. “Depois do supletivo, não consegui fazer mais nada inovador. Eu tinha muitas ideias, mas era podado pelas leis da rede pública, onde trabalhava”, diz.

Anízio, porém, sente-se um vitorioso, embora às vezes meio injustiçado. Até algumas décadas atrás, o casal se lembra de receber visitas de vários alunos do miniginásio. “Eram pessoas que voltavam e nos diziam que eram advogados, médicos, dentistas, engenheiros e que, sem o supletivo, não teriam continuado os estudos”, diz Lydia. “É curioso que uma pessoa que tenha sido impedida de fazer uma faculdade, tenha aberto as portas para que muitas outras pudessem realizar esse sonho”, acrescenta Ariane, a caçula dos três filhos do casal (mãe de duas das sete netas). Mágoa? Anízio só ressente-se de que hoje pouca gente saiba que ele inventou o supletivo. “Acho que agora mais gente vai saber.”

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