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Promotorias de Justiça

Os desafios de popularizar o que é público

População recorre mais ao MP, mas ainda sem saber direito seu papel. Uns vão pedir uma namorada, outros para criticar o presidente

O procurador-geral de Justiça do Paraná, Olympio de Sá Sotto Maior, lutou pelas mudanças no MP | Priscila Forone / Gazeta do Povo
O procurador-geral de Justiça do Paraná, Olympio de Sá Sotto Maior, lutou pelas mudanças no MP (Foto: Priscila Forone / Gazeta do Povo)

Uma das histórias mais curiosas que Márcio Soares Berclaz viveu como promotor de Justiça foi atender ao pedido de um idoso em busca de uma nova namorada. Já a promotora Carolina Dias Aidar de Oliveira foi chamada para ser jurada em concurso de miss, além de ser "convocada" por uma cidadã indignada a es­­crever uma carta ao presidente da República. Esses "causos" ilustram como a população passou a ver o Ministério Pú­­blico como aliado, mesmo ainda sem saber direito o seu papel. Hoje, dia nacional do MP, a Gazeta do Povo inicia uma série de reportagens sobre seus serviços e os desafios para torná-los mais conhecidos.

A Constituição de 1988 alterou o papel do MP. Antes, os promotores atuavam mais na área criminal, responsáveis por acusar quem havia cometido crime, mesmo que aos poucos já começassem a atuar em outras áreas. Com a Cons­­tituição, eles passaram de re­­presentantes do Estado a representantes da sociedade, atuando na resolução de problemas que afetam todas as pessoas, como meio ambiente, defesa do consumidor e direitos humanos. A ideia é simples: se o cidadão tem um problema que não é individual e também prejudica a sociedade, o MP é um aliado.

Na prática, isso fez com que o MP voltasse sua atenção para questões sociais. Quando há desrespeito a um direito coletivo, o promotor deve agir como advogado da sociedade. Se, por exemplo, um prefeito não oferece transporte coletivo de qualidade, o MP deve intervir. Ao invés de cuidar de interesses do Estado, a instituição passou a bater de frente com governantes quando o bem-estar da população está em jogo. Os promotores passaram a ser defensores da ordem jurídica, da democracia e dos interesses coletivos e individuais indisponíveis.

Confusão

Carolina trabalha há 13 anos no MP, 12 deles em Matinhos, litoral do Paraná. As histórias por ela vividas mostram que o órgão está cada vez mais próximo da população, apesar de ainda haver muita confusão com o Judiciário. "Muitas pessoas, inclusive da família, perguntam quando serei promovida a juíza", brinca. Apesar de ter uma atuação judicial e dialogar muito com advogados e juízes, o MP não faz parte do Judiciário.

A Constituição deu autonomia aos promotores, sem vínculo com Judiciário, Legislativo ou Execu­­tivo. A "semelhança" com os juízes ainda ocorre porque em cidades pequenas as duas carreiras ocupam o mesmo espaço. E alguns promotores fazem questão de usar o "jargão" jurídico e também terno e gravata (tradicional traje forense), o que causa um distanciamento da população mais simples.

Para encarar os quatro anos e meio como promotor em For­­mosa do Oeste, município do Paraná com 7 mil habitantes, Berclaz quase aposentou o terno e a gravata. E não titubeava em comparecer às reu­­niões de moradores. "‘Pin­­guinizar-se’ mais atrapalha do que ajuda", brinca o promotor. "Além do trabalho judicial, há um importante lado extrajudicial, ainda deixado de lado por alguns colegas." Para Carolina, no trabalho extrajudicial é importante receber a população e saber ouvir as demandas. A dedicação faz com que às vezes a promotora precise resolver problemas que extrapolam a função formal, como questões familiares e brigas de vizinhos.

Berclaz lamenta que ainda falte es­­trutura para atender bem a po­­pu­­lação, principalmente nas cidades menores. "Nos municípios pe­­quenos, o MP é a última porta onde a população vai bater porque sabe que será ouvida. Mas faltam fun­­cio­­nários e espaço físico." Para ele, a população reconhece a autoridade do MP, mas ainda desconhece sua função. "Para transformar a rea­­lidade é preciso estar disponível para a população. É preciso mais cobrança institucional para que a postura de alguns promotores mude e eles deixem de ter uma atuação burocrático-judicial." Por se­­mana, Berclaz atende cerca de 100 pessoas que procuram o MP em Palmas, onde trabalha atualmente.

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