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Pais encerram ensino domiciliar após multa chegar a quase R$ 1,4 milhão

Um casal do Paraná manteve ensino domiciliar dos filhos durante dois anos, mas precisou matricular as crianças no ensino regular após multa milionária.
Um casal do Paraná manteve ensino domiciliar dos filhos durante dois anos, mas precisou matricular as crianças no ensino regular após multa milionária. (Foto: Arquivo pessoal)

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Um casal paranaense que optou pelo ensino domiciliar precisou matricular os filhos em uma escola tradicional após a multa exigida pela Justiça chegar a R$ 1,4 milhão. O caso foi registrado na cidade de Araucária, região metropolitana de Curitiba, no Paraná, onde as crianças estudaram com a mãe entre 2023 e o início de 2025, mas veio à tona esta semana, após uma família de São Paulo ser condenada à 50 dias de detenção por ensino domiciliar.

De acordo com a advogada Danielle de Almeida Ferreira, que representou os pais do Paraná no processo, a sentença foi proferida em 2023. Na decisão, a 2ª Promotoria de Justiça de Araucária exigiu que o casal matriculasse os dois filhos — na época com quatro e sete anos — em uma instituição de ensino regular, “sob pena de multa diária no valor de R$ 1 mil” para cada criança.

Apesar da multa, a advogada informa que a família decidiu manter a educação domiciliar por dois anos, o que fez com que o valor de R$ 2 mil por dia “gerasse montante expressivo em pouco tempo” e alcançasse “em torno de R$ 1,4 milhão”.

O valor começou a ser cobrado em setembro de 2023, quando somava cerca de R$ 186 mil, e o casal teve as contas bancárias e o carro bloqueados devido à cobrança. "Era muita pressão psicológica em relação à multa caríssima, bens bloqueados e cansaço mental”, relatou a mãe.

Segundo ela, a família contratou dois advogados especializados em homeschooling, e o processo seguiu enquanto as crianças estudavam disciplinas regulares como português, matemática, ciências e educação física. Elas também recebiam aulas de culinária, corte e costura, inglês, música e canto coral.

No entanto, a família informa que a situação começou a ficar muito “pesada”, e o casal optou, em 2025, pela realização da matrícula dos filhos na educação regular. “Compramos a briga até onde deu, e valeu cada centavo e cada minuto”, revela a mãe, que cumpriu a obrigação determinada judicialmente para que a multa milionária fosse retirada, sem cobrança de nenhum valor acumulado.

“Isso evitou uma dívida desproporcional, permitindo que os recursos financeiros permanecessem direcionados ao sustento, à educação, à saúde e ao bem-estar das crianças”, apontou a advogada Danielle, que já atendeu casos de pais educadores com desfechos diferentes. "Há casos que, mesmo com a matrícula, cobram a multa", lamenta.

Família de Araucária optou pela educação familiar após pandemia de Covid-19

À Gazeta do Povo, a mãe das crianças de Araucária informa que é formada em Matemática e atuou como professora até o final da pandemia de Covid-19, quando decidiu deixar o trabalho para se dedicar ao ensino exclusivo dos filhos. Na época, eles estavam com quatro e sete anos, e a menina apresentou dificuldades de aprendizado ao retornar para o ambiente escolar pós-pandemia.

“Porém, em casa, ela aprendia muito porque tinha somente ela e o irmão, então não se distraía”, relata a mãe, que buscou referências a respeito do ensino domiciliar e decidiu, a partir de janeiro de 2023, testar essa modalidade de ensino com a filha. “Em dois meses de ‘homeschool’, ela se desenvolveu muito melhor do que em um ano inteiro”, recorda.

“Só que perdi o prazo da matrícula na escola e, automaticamente, acionaram o Conselho Tutelar”, conta a moradora do Paraná, que passou a enfrentar um longo processo judicial enquanto se dedicava ao ensino dos filhos.

Segundo ela, ambos recebiam acompanhamento de neuropsicopedagoga semanalmente e usavam materiais didáticos de uma escola cristã especializada em homeschooling. “As atividades eram práticas e também em meio à natureza”, conta, ao informar que os filhos seguiam rotina adequada para a idade com tarefas domésticas, ensino teórico e atividades práticas. “E eu planejava tudo com antecedência e registrava o que havia feito no dia.”

A família manteve o ensino domiciliar dos filhos por dois anos e registrou todos os conteúdos aplicados.A família manteve o ensino domiciliar dos filhos por dois anos e registrou todos os conteúdos aplicados. (Foto: Arquivo pessoal) (Foto: Arquivo pessoal/K.M.L)

Ainda de acordo com a mãe, o Ministério Público (MP) chegou a elogiar o trabalho que ela realizava com as crianças, mas informou que não havia legislação a respeito e que não poderiam permitir a continuidade.

“Perguntaram se queríamos matricular as crianças na escola ou seguir com o processo, sujando nossos nomes”, recorda a mãe, que recebeu a multa já na primeira audiência, mas seguiu com o processo enquanto foi possível.

 “Conseguimos formar crianças com valores cristãos, bondosas, gentis, inteligentes e com suas opiniões, respeitando o próximo e não pensando somente em si”, afirmou. “Valeu a pena”, finalizou.

PL da educação domiciliar está em tramitação no Senado

Em 2018, o STF reconheceu que a educação domiciliar não é incompatível com o previsto na Constituição, mas que também não é um direito garantido automaticamente ao aluno ou à família. De acordo com o Supremo, o tema precisa de regulamentação por meio de lei federal.

Atualmente, o principal Projeto de Lei a respeito é o PL 1.338/2022, que prevê regras para a educação domiciliar. O texto foi aprovado na Câmara dos Deputados, em maio de 2022, e enviado ao Senado, onde segue parado na Comissão de Educação. O PL teve parecer favorável da relatora — senadora Professora Dorinha Seabra — em 2025, mas não avançou para votação.

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