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Paisagens possíveis

Preservação de ferrovias e zonas industriais ganha impulso no Brasil com aplicação de políticas alternativas de patrimônio

  • José Carlos Fernandes
Paisagem Ferroviária da Vila Oficinas em Curitiba: desafio é integrar o caminho do trem à cidade |
Paisagem Ferroviária da Vila Oficinas em Curitiba: desafio é integrar o caminho do trem à cidade
 
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"Só não quero que a Unesco seja o síndico de Copacabana". A frase – atribuída ao prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes – traduz uma reação comum do poder público a cada vez que se fala em preservação. Nesse caso, o motivo do pé-atrás é só um: o Rio se candidatou a receber do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, a chancela de "Paisagem Cultural". Caso consiga, deve se transformar num laboratório privilegiado de memória urbana, farol para outras cidades brasileiras.

O conceito de "paisagem cultural" ainda está em processo, daí a desconfiança que provoca. Não se sabe, por exemplo, o que realmente o título pode inibir. Mas não há dúvida de que políticas alternativas à dos tombamentos – cada vez mais raros e caros – são bem-vindas, principalmente se forem capazes de atingir um número maior de bens preserváveis. É o caso.

Em se tratando de "paisagem", subentende-se que no lugar de um único palacete emoldurado, tem-se todo o seu entorno protegido em algum nível. Ou seja, o título do Iphan tem poder de dar sobrevida a bens arquitetonicamente menos importantes, mas fundamentais para ilustrar um determinado período histórico. Grosso modo, a memória da escravidão, por exemplo, inclui tantos as senzalas quanto as casas grandes.

Não se trata de uma novidade. Segundo o geógrafo Rafael Winter Ribeiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e estudioso das políticas de patrimônio, o conceito de paisagem cultural é trabalhado pela Geografia desde o século 19 e encontrou eco em 1937, quando o governo Vargas cria o Iphan. "Já se pensava em preservar o conjunto, como a música e a gastronomia", observa.

Na prática, contudo, paisagem continuou sendo sinônimo de natureza e patrimônio sinônimo bens edificados, particularmente a arquitetura. Não se muda uma tradição dessas com facilidade. Nem mesmo na Unesco – que reconhece desde 1992 o termo "paisagem cultural", mas que ainda vincula paisagem à natureza.

A Serra do Mar, tombada pelo governo do Estado em 1986, se encaixa nesse debate: inclui a montanha, a mata, as pontes, a estrada de ferro, mas não as estações de trem, como a Ipiranga, hoje em petição de miséria. Já a Rua XV, tombada como paisagem em 1974, é um feliz reconhecimento das chamadas paisagens urbanas.

Essa história, no entanto, está longe de um consenso. Um casario histórico é facilmente assimilável pelos órgãos da preservação e governos, mas o mesmo não se pode dizer de um conjunto de fábricas.

A pesquisadora Manoela Rossinetti Rufinoni, da USP, trabalha pela preservação da paisagem fabril da cidade brasileira cuja identidade mais se confunde com o mundo do trabalho – São Paulo. Mesmo assim, salvar alguma chaminé ou coisa que valha é uma tarefa para um super-herói. "A maior dificuldade é entender que o patrimônio pode fazer parte do dia a dia e que a metrópole não vai ficar paralisada por causa dele", argumenta.

O reconhecimento como "paisagem cultural" seria uma garantia de que esse engessamento ficou no passado, já que não exige reconstruções nem a transformação de espaços em zonas de espetáculo. O enrosco é que as paisagens fabris ocupam grandes áreas, quando não, estão espalhadas pela cidade, a exemplo das paisagens ferroviárias.

"A gente não consegue acompanhar a rapidez com que a paisagem fabril é destruída. Para muitos, é difícil entendê-la como um conjunto. Só tem uma saída – fazer inventários, de modo a saber o que estamos perdendo e o que podemos salvar", comenta Manuela.

A pergunta que fica é por que os órgãos públicos de urbanismo e arquitetos não seguem o exemplo da Europa e se apropriam das construções já existentes, adaptando-as às exigências de hoje. A resposta é só uma: no Mundo Novo vigora a cultura do inédito e do inaugural. Como observa Manuela, "os arquitetos são formados para construir uma obra de exceção e não para dialogar com a cidade existente".

Por ironia, o mercado imobiliário investe cada vez mais nos pastiches do passado. "São cenários de consumo", observa Rafael. "E cenários que podem ser desmanchados amanhã, sem nenhuma ameaça. Muitos ganham em cima dessas reciclagens falsas", emenda o arquiteto Key Imaguire, da UFPR, também pesquisador das paisagens urbanas.

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