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Saúde

Paradoxos da infância no revés da balança

País consegue derrubar a desnutrição infantil, mas acompanha inerte a escalada da obesidade entre crianças

Rosa e o filho Saymon: com quase quatro anos ele ainda mama no peito, um dos motivos da desnutrição | Marcelo Elias/Gazeta do Povo
Rosa e o filho Saymon: com quase quatro anos ele ainda mama no peito, um dos motivos da desnutrição (Foto: Marcelo Elias/Gazeta do Povo)
Aos 6 meses de idade, Mario já sofre restrições alimentares: leite, legumes e carne, mas nada de carboidrato |

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Aos 6 meses de idade, Mario já sofre restrições alimentares: leite, legumes e carne, mas nada de carboidrato

Mario e Saymon simbolizam um paradoxo da infância. Eles têm pesos desiguais no descompasso da balança brasileira, não só pela idade. Se de um lado o Brasil conseguiu reduzir, e muito, as taxas de desnutrição, de outro não consegue controlar a alta nos índices de obesidade infantil. Há dez anos, 9% das crianças estavam abaixo do peso ideal; hoje são 5%. No outro extremo, dobrou em 30 anos o número de meninas acima do peso e mais do que quadruplicou o de meninos com sobrepeso. Em valores absolutos, hoje há 9 milhões de crianças padecendo da subnutrição e 15 milhões sofrendo com a obesidade. Nos dois casos, não necessariamente por comer muito ou pouco, mas por comer mal.

Mario Kestering Lopes tem só 6 meses de idade e já sofre restrições alimentares. Seu cardápio inclui apenas leite, legumes e carne. "Cortamos a batata, a cenoura, o macarrão e o arroz da sopinha, nada de carboidratos", diz a mãe, a pedagoga Perla Kestering. Ele estava ganhando mais peso do que o normal, forçando-o a uma dieta especial. Assim como no caso dele, o controle alimentar faz parte da rotina de muitas crianças que, por razões hereditárias ou hábitos familiares, apresentam tendência a engordar. É o oposto de Saymon Andrei Campos Filho, de 3 anos e 9 meses, que faz tratamento para se recuperar da desnutrição.

Saymon adora guloseimas nada saudáveis, como bolachas e chicletes. "O que eu mais gosto de comer é coxinha", diz ao beber refrigerante. Segundo a cabeleireira Rosa Maristela Gonçalves, 26 anos, o filho tinha falta de apetite e dificuldade para ganhar peso. Agora chegou aos 14 quilos e 84 centímetros. "Mas ele ainda mama no peito e só vai engordar mais quando parar", conta. O leite materno, tão necessário aos bebês mais novos, pode agravar o quadro de desnutrição se usado como substituto da alimentação normal. "Ele supre a necessidade nutricional até os dois anos, depois é preciso completar com outros alimentos", ensina a pediatra Maria Elisabeth Glitz.

A desnutrição é um problema social e ocorre pela falta de alimentos em casa, pela falta de alimentos específicos para a idade ou pela desinformação da família, que não conhece a importância de uma alimentação balanceada desde cedo. O Hospital Pequeno Príncipe, de Curitiba, costuma receber crianças nessas condições. Ali elas recebem uma alimentação equilibrada e voltam para casa ao chegar ao peso ideal. Segundo a nutricionista Maria Emília Suplicy, é comum algumas voltarem porque a família não consegue alimentá-las corretamente, mesmo tendo sido orientadas sobre a dieta apropriada. Alimentação desequilibrada, com com poucas vitaminas e muito açúcar contribui para a desnutrição.

As diferenças

As estatísticas ajudam a explicar as diferenças entre Mario e Symon. Nove milhões de crianças, algo em torno de 5% da população brasileira, ainda sentem os efeitos da subnutrição. Mas já foi pior. O país reduziu quase pela metade a desnutrição infantil entre 1996 e 2006, segundo a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS). A redução também puxou para baixo a mortalidade infantil, de 39 para 22 em cada mil nascidos vivos, com perspectiva de cair para 14,4 em 2012. Nessa pesquisa, financiada pelo Ministério da Saúde, o Ibope ouviu 15 mil mulheres de 15 a 49 anos e cinco mil crianças de até 5 anos, de novembro de 2006 e maio de 2007.

Na média nacional, 4,7% dos domicílios passaram fome nos três meses anteriores à pesquisa, taxa que sobe para 13,3% na região Norte, onde 37,5% das mulheres disseram não ter acesso a comida em quantidade e qualidade suficiente para a família. O número salta para 54,6% no Nordeste, onde justamente mais se avançou. Ali, a desnutrição caiu 74%. Os avanços se devem ao Bolsa Família, ao aumento da renda e da escolaridade da população, à ampliação da assistência à saúde e à cobertura de abastecimento de água. A cobertura do Programa Saúde da Família (PSF), por exemplo, passou de 50% dos municípios brasileiros, em 2000, para 91,8% em 2006.

Segundo a PNDS, o índice de crianças de até 5 anos que sofrem de desnutrição crônica caiu de 13% para 7% (leva-se em conta o déficit de altura em relação à idade). No Nordeste, a taxa baixou de 22% para 5,7%. A desnutrição infantil aguda, que pode levar à morte, caiu 13% entre 1996 e 2006. A proporção de crianças com déficit de peso em relação à altura reduziu de 2,3% para 2%. Nesse ritmo, o país deve atingir três anos antes do prazo a quarta meta dos Oito Objetivos do Milênio. A Organização das Nações Unidas (ONU) estabelece como meta a redução da mortalidade infantil em dois terços entre 1990 e 2015.

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