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Pesquisadores responsáveis por um estudo publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, amplamente divulgado como associando o "negacionismo científico" à perda de 3,4 anos na expectativa de vida dos brasileiros durante a pandemia de Covid-19, esclareceram que o trabalho não prova uma relação causal entre decisões políticas do governo de Jair Bolsonaro e o aumento da mortalidade.
O esclarecimento dos autores foi publicado pela própria revista após ser contestada em um artigo assinado pelo ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga e pelos conselheiros do Conselho Federal de Medicina (CFM) Raphael Câmara e Francisco Cardoso.
No artigo de contestação da pesquisa, os apoiadores de Bolsonaro afirmaram que o estudo Burden of disease and life expectancy decomposition in Brazil and its federated units, 1990–2023, publicado em maio de 2026, apenas apresenta hipóteses baseadas em dados observacionais, sem chegar a comprovações científicas definitivas.
Embora reconheçam que o estudo tem seu valor no que diz respeito à análise da evolução da carga de doença e da expectativa de vida no Brasil, os médicos explicam que o material extrapola a metodologia do estudo ao apresentar interpretações que poderiam ser entendidas como relações de causa e efeito.
“Análises ecológicas são valiosas para identificar padrões temporais e geográficos e para gerar hipóteses, mas apresentam limitações importantes no que diz respeito à inferência causal, particularmente quando estão envolvidos determinantes políticos, institucionais e comportamentais complexos”, dizem.
Para eles, o estudo faz ainda outras generalizações quando diz que a resposta inadequada do país frente à pandemia é reflexo de retrocessos mais amplos na saúde pública e cita programas que sofreram cortes entre os anos de 2018 e 2023. De acordo com os médicos, a discussão sobre a Emenda Constitucional 95 (EC-95), que instituiu o “teto de gastos”, também não tem relação científica com o escopo da pesquisa.
Pesquisadores concordam que o estudo gera hipóteses e não “conclusões categóricas”
Em resposta, os autores do estudo afirmaram que jamais pretenderam demonstrar efeitos causais de decisões políticas específicas. Segundo eles, a discussão apresentada no artigo teve caráter contextual e foi baseada em evidências observacionais já descritas na literatura científica internacional.
“Em nenhum momento afirmamos demonstrar efeitos causais de decisões políticas específicas, políticas públicas ou fenômenos sociais. Em vez disso, nossa interpretação foi enquadrada como uma discussão contextual de achados observados durante um período que foi amplamente examinado na literatura científica”, iniciam eles na correspondência.
Os pesquisadores acrescentam que o uso de expressões como "sugere" teve justamente o objetivo de apresentar hipóteses plausíveis, e não conclusões categóricas. Segundo eles, fatores como negacionismo científico e respostas fragmentadas à pandemia aparecem como possíveis contribuintes para os resultados observados porque essa associação já foi documentada em diversos estudos anteriores.
“Nossa discussão foi embasada nesse conjunto mais amplo de evidências, que consistentemente identificou esses fatores como contribuintes plausíveis para os desfechos heterogêneos da pandemia. É importante ressaltar que todos os sistemas de informação em saúde e exercícios de modelagem contêm incertezas”, dizem.
Eles finalizam assumindo que os fatores determinantes para o excesso de mortalidade e das perdas de expectativa de vida durante a pandemia de Covid-19 são complexos e multifatoriais. “Nossos achados devem, portanto, ser interpretados como evidências descritivas que contribuem para a compreensão desses padrões, reconhecendo-se, contudo, as limitações inerentes às análises observacionais em nível populacional para inferência causal”, finalizam.
O que diz o estudo sobre as taxas de mortalidade no Brasil
O estudo Burden of disease and life expectancy decomposition in Brazil and its federated units, 1990–2023 mostra que a taxa de mortalidade no Brasil caiu 34% entre 1990 e 2023, contribuindo para um aumento de sete anos na expectativa de vida da população. Esse avanço, porém, foi parcialmente revertido durante a pandemia de Covid-19: entre 2019 e 2021, a mortalidade aumentou mais de 20% na maior parte dos estados brasileiros, reduzindo a expectativa de vida em 3,4 anos.
Com o fim da pandemia, em 2023, as principais causas de morte no país voltaram a ser as mesmas de 2019: doenças cardíacas, pneumonias e outras infecções respiratórias.



