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Operação intolerância

PF prende dois por apologia à violência na web

Suspeitos presos em Curitiba mantinham site na internet onde postavam mensagens de ódio contra negros, judeus, mulheres e homossexuais

  • PorFernanda Trisotto e Fernanda Leitóles
  • 22/03/2012 21:08
Emerson Rodrigues fazia comentários sobre a “impossibilidade” de localizá-lo | Reprodução/RPC/TV
Emerson Rodrigues fazia comentários sobre a “impossibilidade” de localizá-lo| Foto: Reprodução/RPC/TV

Realengo

Ligação com atirador é investigada

O blog fazia referência ao grupo "Hominis Sanctus", que a polícia acredita ser uma seita da qual os envolvidos nas postagens participavam. A PF investiga se Wellington de Oliveira, que em 2011 invadiu uma escola em Realengo no Rio, e matou 12 crianças antes de cometer suicídio, fazia parte do grupo. Está sendo investigado ainda se os dois suspeitos detidos teriam orientado e estimulado Wellington a cometer o massacre. O site publicou mensagens em apoio à ação. Além disso, uma possível tentativa de ataque contra alunos da Universidade de Brasília foi frustrada. O suspeito Marcelo Mello é ex-aluno da universidade e estaria planejando uma ação na instituição. Em mensagem no site, ele afirmou que essa seria a vingança contra os que tornaram a vida dele um inferno. (FT)

  • Segundo a polícia, Marcelo Mello planejava um ataque na Universidade de Brasília

Dois homens foram presos ontem em Curitiba suspeitos de serem responsáveis por um site que di­­vulgava mensagens de ódio e preconceito e incitava a violência contra mulheres, negros, homossexuais, nordestinos e judeus. Emerson Eduardo Rodrigues, de 32 anos, que mora em Curitiba, e Marcelo Valle Silveira Mello, de 29 anos, que reside em Brasília, foram detidos na capital paranaense durante a Operação Intolerância, comandada pela Polícia Federal (PF).

As investigações, em andamento desde 2011, foram conduzidas pelo Núcleo de Repressão aos Cri­­mes Cibernéticos, unidade especializada da PF. Também foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão no Paraná e um em Brasília.

O site com conteúdo criminoso incentivava ainda o abuso sexual de crianças e adolescentes, de acordo com a PF. A página continha ofensas contra a presidente Dilma Rousseff (PT) e ameaças de morte feitas ao deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), que atua em defesa dos direitos dos homossexuais. Em uma das postagens, os responsáveis pelo conteúdo afirmavam que não vieram "para mudar e sim destruir". Na sequência, falavam sobre os objetivos do grupo, que seria o de reunir pessoas com as mesmas ideias e promover ataques em paradas gays e contra manifestos gays, além da morte de políticos.

O blog também publicava manuais para que os visitantes soubessem como organizar ações. Em um dos textos, intitulado "como angariar novinhas para fins sexuais", os autores davam dicas de como se aproximar de crianças.

Investigação

De acordo com o inquérito, Rodrigues usava o nome falso de Silvio Koerich, com o qual registrou o domínio do blog, após ter sido expulso de um fórum de debate de questões feministas. Segundo o delegado da PF Flúvio Cardinelle Oliveira Garcia, chefe do Núcleo de Repressão a Crimes Cibernéticos da PF no Paraná, o site ainda está no ar porque o servidor que faz a hospedagem é da Malásia. A PF já fez uma solicitação para que o governo malaio remova a página da web.

Rodrigues e Mello vão responder pelos crimes de incitação/indução à discriminação ou preconceito de raça, por meio de recursos de comunicação social (Lei 7.716/89); incitação à prática de crime (art. 286 do Código Penal) e publicação de fotografia com cena pornográfica envolvendo criança ou adolescente (Lei 8.069/90-ECA). Os dois ficam detidos na sede da PF em Curitiba por tempo indeterminado.

A polícia segue investigando o caso, pois há indícios de que mais pessoas eram responsáveis pela atualização de conteúdos do blog. Também está sendo verificado se as imagens postadas no site são reproduções ou se estão relacionadas a crimes cometidos pelos suspeitos.

Denúncias

O site já era alvo de denúncias desde 2011. O Ministério Público Federal (MPF) e a organização não governamental (ONG) SaferNet receberam aproximadamente 70 mil denúncias contra o conteúdo do blog. Segundo Márcio Marins, que faz parte da mesa diretora do Conselho Nacional de Segurança Pública (Conasp), representando o movimento LGBT, há uma suspeita de que mais grupos mantenham esse tipo de site, com pessoas atuando em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. "O grupo por trás desses conteúdos é muito maior e tememos medo de retaliação", revela.

"Não existe mais anonimato na internet", afirma especialista

Entre postagens de ódio, os suspeitos de manter o blog criminoso também publicavam mensagens de deboche em relação à ação policial, alegando que jamais seriam localizados e que os departamentos de polícia, tanto Federal quanto Civil, eram formados por "funcionários públicos vagabundos que só estudaram para passar em um concurso, e depois coçam o saco".

Para Wanderson Castilho, especialista em segurança da informação, a prisão dos responsáveis pelo site é um alerta para todos os que acreditam que existe anonimato na internet. "Os criminosos também cometem erros. Nesse caso, eles subestimavam a capacidade da polícia", analisa. Apesar de o site estar hospedado na Malásia, um país com o qual o Brasil não tem uma relação tão rápida com a justiça, e de os suspeitos usarem proxys, mecanismos que tentam mascarar o endereço de origem das postagens, tudo é passível de rastreamento na internet.

Apesar de o site ainda não ter sido retirado do ar, por causa de burocracias jurídicas, Castilho lembra que é possível bloquear o acesso ao conteúdo. Ele explica que os próprios servidores podem bloquear o endereço para impedir a visualização do blog por internautas residentes no Brasil.

Já o cidadão que encontra uma página na internet com esse tipo de conteúdo pode tomar duas atitudes: denunciar o site e não acessá-lo novamente, para impedir a disseminação do conteúdo.

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