Até os 69 anos, ter um plano de saúde ou fazer consultas e tratamentos particulares não é garantia de vida mais longa em relação aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). A conclusão é de um estudo do Ministério da Saúde (MS) sobre a taxa de mortalidade do brasileiro. A pesquisa, feita neste ano, revela que o nível de mortalidade é muito semelhante entre os brasileiros em geral e aqueles que têm convênio.
De acordo com o estudo, que trabalha com o porcentual de mortalidade em relação ao total de brasileiros e de beneficiários, a Região Sul segue a tendência nacional. A avaliação foi feita com o uso de registros considerados inquestionáveis sobre a população usuária de planos de saúde, no cruzamento de dados do Sistema de Informação de Beneficiários e do Sistema de Informação de Mortalidade (Sim).
Entre as doenças analisadas pelo MS estão as circulatórias e o câncer. Na distribuição proporcional da mortalidade por doenças do aparelho circulatório, os beneficiários brancos do Sul registraram o maior porcentual do país: 87,2% dos sulistas doentes morreram, 11 pontos porcentuais acima da média nacional, de 76,2%. Na população geral branca, a taxa de mortalidade cai para 85,9% na Região Sul e para 59,3% nacionalmente.
Outro destaque na pesquisa é o alto índice de câncer no Sul. A região ocupa o segundo lugar no ranking com maior proporção de mortes por neoplasias do país, com 20,9% de óbitos entre brasileiros vítimas de câncer, logo atrás da Região Sudeste. Entre os beneficiários de planos, o Sul mantém o segundo maior índice, com 11,4%. No Sudeste, primeiro no ranking, a taxa é de 72,7%.
Segundo a coordenadora de Informações e Análise Epidemiológica do MS, Maria de Fátima Machado, em geral os sulistas possuem melhores condições de saúde. No entanto, afirma Fátima, ao contrário do que se esperaria, os planos de saúde não tiveram o impacto na diferença de mortalidade. No câncer de mama, por exemplo, quase 18% dos beneficiários com essa doença morreram, enquanto entre os brasileiros em geral o porcentual foi de 14,4%. Já nos casos de câncer de útero, enquanto entre os brasileiros a mortalidade foi de 5,7%, o número caiu para 3% entre usuários de planos. "Nos dados de câncer de colo de útero, a queda é possível até mesmo pelas condições socioeconômicas das pacientes. Mas no câncer de mama esse deveria ser o mesmo perfil, o que não acontece. Há um erro na prevenção das doenças", aponta.
Além da falta de prevenção, a coordenadora jurídica da Associação da Defesa dos Usuários de Seguros, Planos de Saúde e Assistência de Saúde (Aduseps), Marta Lins, aponta como motivo para a semelhança entre os dados a pouca importância dada aos pacientes atendidos por planos de saúde, o que faz o atendimento ser parecido com o oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo Marta, um dos motivos é a exclusão dos usuários de alguns benefícios de que eles precisam. "No momento em que determinado paciente precisa de um tratamento e o plano de saúde não autoriza, ele corre para o SUS, onde espera meses na fila e, quando não tem vaga, acaba morrendo", afirma.
A auxiliar administrativa Raquel de Melo Novaes, 30 anos, cancelou o contrato com a operadora de plano de saúde no ano retrasado. Desde então, ela guarda dinheiro mensalmente para pagar eventuais idas ao médico. Isso porque, segundo ela, não vale a pena ter plano de saúde. "Já tive de fazer exames por problemas médicos e eles se negaram a pagar. Tive de reclamar no Procon para ter o valor reembolsado. Agora faço tudo particular, porque no SUS também é impossível", afirma. Ela sabe, porém, do risco que corre caso seja detectada alguma doença grave. "Posso morrer, porque não terei dinheiro para pagar e no SUS a espera é longa e o atendimento, péssimo", disse.
Serviço: os interessados podem acessar a pesquisa completa no link da Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, pelo endereço www.saude.gov.br.






