
A especialidade da irmã Joaquina Camargo é abrir portões. Quando ela assumiu a oferta de café da manhã para moradores de rua na casa paroquial em que vive, no bairro São Francisco, em Curitiba, os pedintes eram atendidos junto à entrada, entre as grades. Porém, a religiosa, então com 74 anos, achava o formato duplamente insatisfatório. Achava indigno o fato de os atendidos serem obrigados a comer em pé, na calçada, e sentia que faltava a elas poder oferecer a hospitalidade apregoada pelas Filhas da Caridade, uma congregação católica vocacionada para o serviço aos pobres.
Foi então que a irmã Joaquina passou a acolhê-los no saguão de entrada. De início, eram cerca de 20 frequentadores habituais, que haviam se acostumado a passar por ali todos os dias à procura do desjejum. A notícia do bom acolhimento correu rápido pelas ruas do São Francisco e das Mercês, área de influência da Paróquia São Vicente de Paulo. A igreja, localizada no início da Avenida Manoel Ribas, é uma espécie de divisa informal entre os dois bairros que concentram a maior quantidade de mendigos fora do Centro.
Quatro anos depois, já se pode contar 20 moradores de rua vinte minutos antes do início do café. Mas eles agora esperam em outra calçada, meia quadra distante do portão em que o trabalho começou, a partir das 7h30. E ficarão sentados no meio-fio somente até a chegada da irmã Joaquina, responsável por abrir o portão da Casa de Acolhida São José, onde foi montada uma estrutura para atender a um número consideravelmente maior de necessitados. Até a hora do café serão 50, o que representa metade dos atendidos cadastrados até então.
Rotina
A maioria deles se conhece e troca apertos de mão, conversando sobre a "correria" da rua. Também conhecem a rotina da casa. Quando veem a irmã Joaquina e alguns colegas descerem a rua carregando garrafas térmicas e sacos grandes de pão, levantam-se e formam uma fila.
Irmã Joaquina anota os nomes num caderno, embora conheça vários deles de cor. "Caio, pega uma cadeira e senta direitinho", ordena ela, em tom professoral. É uma pessoa disciplinadora, que exige dos frequentadores sentarem-se à mesa alinhados durante a refeição, que inicia após a oração. "A autoestima deles é nenhuma. Eles se sentem diminuídos e não se acham dignos de ser recebidos em lugar algum", analisa. "Não queremos dar café a vida inteira e sim ajudá-los a perceber o valor deles como filhos de Deus. Quando isso acontecer, encontrarão forças para sair dessa situação", diz.
Além da alimentação, os atendidos podem tomar banho e ganham roupas. A casa também oferece assistência social e jurídica, além de catequese e outras celebrações religiosas.
Imóvel foi adquirido em 2010
A Casa de Acolhida São José fica no último imóvel da Rua Paula Gomes, na esquina com a Rua Parnaíba, de frente para a fachada dos fundos da casa paroquial das Filhas da Caridade. O imóvel foi adquirido em 2010, com recursos do fundo mundial dessa entidade da Igreja Católica, que está sediada em Paris. As missionárias curitibanas elaboraram um projeto e receberam os R$ 640 mil para a compra do imóvel um casarão antigo com 22 cômodos, que já abrigou albergue, creche e residência familiar.
Também constava do projeto a verba necessária para a reforma e a compra de equipamentos maiores, como a cafeteira industrial. Por problemas na rede elétrica da casa, a máquina teve de ser instalada na casa paroquial por isso a viagem diária até o outro lado da rua. As pequenas compras e os alimentos são obtidos a partir de doações.








