
Professores de 19 estados do país defendem uma linha mais dura para conter a indisciplina dos estudantes. Na opinião de 85,5% de 8.773 docentes da educação básica em os conflitos dentro da escola aumentaram nos últimos três anos. Desse total, 83% querem atitudes mais duras para conter a indisciplina. Entre as sanções, 67,9% apontam a expulsão do aluno como uma das medidas que poderiam ser tomadas pelos diretores dos estabelecimentos onde atuam. Esses dados estão na pesquisa A qualidade da educação sob o olhar dos professores apresentada ontem, em São Paulo, no Seminário de Educação para a Cidadania, promovido pela Fundação SM e a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).
O estudo traz questões sobre qualidade da educação agrupadas em sete categorias temáticas: fatores que incidem sobre a educação; avaliação geral do sistema educacional; avaliação das diferentes etapas da educação; satisfação com a escola na qual trabalham; mudanças que julgam necessárias para melhorar a educação; avaliação da convivência e avaliação da situação do professorado. Na opinião de Maria Malta Campos, consultora da Fundação Carlos Chagas e colaboradora da pesquisa, o aumento do conflito tem ocorrido na sociedade como um todo nos últimos anos, o que é refletido na escola. "O fato de os professores concordarem com medidas mais duras a serem aplicados em seus alunos tem de ser visto com cautela", alerta. "O estudo não aponta quais são essas medidas, apesar do grau de concordância com a expulsão ter sido alto."
O Paraná é o único estado do país que trata a expulsão do aluno das escolas como algo proibido por lei. O Conselho Estadual da Educação proíbe a exclusão ou transferência compulsória em todas as escolas do estado como forma de sanção disciplinar desde 1996, conforme consta na deliberação número 002. De acordo com o presidente do Conselho Romeu Gomes de Miranda no passado houve a banalização desse recurso. "O conflito é um componente do aprendizado", afirma. "Esse resultado reflete a tensão em que vivem os professores numa época de crescimento da violência urbana. Mas o caminho não é endurecer, mas trabalhar em conjunto com o Ministério Público, Conselhos Tutelares e Conselho de Educação."
Já na opinião da pesquisadora Maria Malta as escolas, principalmente as públicas, estão desorganizadas. "Os ambientes são dispersivos e não contribuem para a concentração e o estudo", avalia. "Não acredito que medidas mais punitivas iriam melhorar. É preciso melhorar o diálogo entre as famílias e a escola."
Famílias
A família foi apontada por 92,5% dos docentes que participaram da pesquisa, como um dos fatores que mais incidem na educação, seguido pela escola (88,9%) e meios de comunicação (81,85). Mais responsabilidades educativas que o seu papel original delegadas pela família à escola foi outra afirmação feita por 91,7% dos professores. A maioria dos docentes ainda (67%) acredita que os pais não prestam atenção suficiente às atividades escolares de seus filhos.
Para a consultora Maria Malta o estudo mostra um desencontro de expectativas da escola e da família. "Existe uma falta de comunicação muito grande", afirma. "As famílias depositam uma enorme esperança nas escolas, mas elas próprias não tiveram acesso à educação com qualidade e têm dificuldades de acompanhar os estudos de seus filhos."
No Colégio Estadual Interlagos, em Cascavel, no Oeste paranaense, os pais estão sendo chamados para assistir às aulas em companhia de alunos com problemas de disciplina. "Muitos pais e mães não acreditam no comportamento que os filhos estão tendo na escola, por isso chamamos para acompanhar", explica a diretora auxiliar da instituição, Vanilda Dias. "Os jovens acabam se sentindo constrangidos com isso e mudam de atitude."
No início do mês, 92 professores e funcionários do Interlagos recorreram ao Ministério Público Estadual para solicitar mais segurança. Eles sofriam ameaças de morte por invasores e alunos matriculados na própria escola. Em sua maioria são jovens que cometeram atos infracionais e além de cumprir medidas socioeducativas, são matriculados nas escolas regulares por determinação do Juizado de Menores. Na época, uma sala de aula chegou a ser apedrejada.
"A expulsão só deve ser adotada em casos perigosos", argumenta Vanilda. "Esses jovens precisam de ajuda, muito deles passaram parte da vida em abrigos, tem histórico de abuso sexual ou sofreram outros tipos de violência. Mas a escola sozinha, sem apoio de profissionais especializados, não consegue dar conta."







