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Pesquisa da Universidade Stanford

Proibição de celulares nas escolas melhora desempenho de alunos

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Restrição a celulares em escolas no Brasil foi associada a uma melhora nas notas de e a uma percepção de aumento da atenção dos alunos. (Foto: Imagem de IA/Gazeta do Povo com ChatGPT)

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A restrição ao uso de celulares em escolas no Brasil foi associada a uma melhora nas notas de matemática e português e a uma percepção de aumento da atenção dos alunos em sala de aula, segundo estudo publicado em abril por um grupo de pesquisadores ligados à Universidade Stanford.

Os levantamentos analisaram tanto a experiência da rede municipal do Rio de Janeiro, pioneira na adoção da medida, quanto os primeiros meses de aplicação da lei nacional que restringiu o uso dos aparelhos nas escolas brasileiras, sancionada no início de 2025.

A pesquisa (veja PDF abaixo) foi conduzida por Guilherme Lichand, professor da Stanford Graduate School of Education, em coautoria com Luca Moreno-Louzada, Matthew Gentzkow e Thiago da Costa. No estudo sobre o Rio, os autores avaliaram estudantes do 6º ao 9º ano da rede municipal. Em paralelo, a equipe também ouviu mais de 3 mil alunos, professores e gestores em escolas públicas e privadas de todo o país para medir a percepção da comunidade escolar depois da entrada em vigor da lei nacional, em 2025.

No levantamento nacional, 83% dos estudantes afirmaram que passaram a prestar mais atenção nas aulas após a restrição ao uso dos celulares. O percentual foi maior entre alunos do ensino fundamental, chegando a 88%, e menor entre estudantes do ensino médio, com 70%.

Os dados também mostram dificuldades de adaptação. Em média, 44% dos estudantes disseram se sentir mais entediados nos intervalos e recreios sem o celular. Além disso, 49% dos professores observaram aumento da ansiedade entre alunos sem acesso aos aparelhos. Para os pesquisadores, os resultados indicam que a política melhorou a atenção em sala, mas também exige que as escolas repensem os momentos de convivência fora da aula.

Lichand recorda que a aplicação concreta da regra varia de escola para escola. Por exemplo, algumas criaram espaços para guardar os celulares fora da sala de aula, outras mantêm os aparelhos em locais dentro da própria sala, e, em alguns casos, os celulares ficam no bolso ou na mochila dos alunos.

"Quanto mais efetiva a escola é em implementar os decretos, maiores são os ganhos esperados. Quanto mais a escola consegue garantir que o celular está realmente inacessível para o aluno, maior tende a ser o efeito", diz.

Caso do Rio mostra que notas ficam mais altas com restrição ao celular

No caso do Rio, a análise se concentrou no efeito da restrição sobre o desempenho escolar. A cidade foi pioneira no país na adoção de uma regra ampla sobre o tema. Em agosto de 2023, a prefeitura proibiu o uso não pedagógico dos celulares dentro das salas de aula. Em fevereiro de 2024, a restrição passou a valer durante todo o período escolar, incluindo intervalos e demais espaços da escola, com exceção de usos pedagógicos orientados por professores e de situações específicas.

Para medir o impacto da política, os pesquisadores compararam escolas que já tinham regras rígidas sobre celulares antes da medida municipal com escolas que tinham regras mais frouxas ou não tinham uma norma geral. O objetivo foi observar se as unidades mais afetadas pela mudança, ou seja, aquelas em que o uso dos aparelhos era mais livre antes da nova regra, melhoraram mais do que as escolas que já restringiam celulares.

Foi o que aconteceu. Depois que a restrição passou a valer durante todo o período escolar, os alunos das escolas mais afetadas pela medida tiveram um salto maior de desempenho em matemática e português do que os estudantes de escolas que já restringiam celulares antes.

O estudo diz que a melhora associada à proibição poderia chegar a um patamar comparável à de algumas intervenções educacionais relevantes já estudadas na literatura, como redução do tamanho de turmas ou melhora na qualidade dos professores.

O impacto foi mais claro em matemática do que em português. A primeira etapa da política, limitada à sala de aula, teve efeitos menores. Os resultados ficaram mais evidentes depois da ampliação da regra para todo o período escolar.

Sem celulares, escolas precisam reinventar a socialização, diz pesquisador

Lichand lembra que a restrição ao celular não serve só para melhorar a atenção dos alunos durante as aulas, mas também para recuperar os momentos de socialização presencial na escola. Isso se torna um especial desafio considerando o contexto geracional de crianças e adolescentes com hábito arraigado de uso dos celulares.

"O objetivo, não só no Brasil, mas também em outros contextos em que essas restrições estão sendo colocadas, são dois. O primeiro é garantir a atenção dentro da sala de aula. O segundo é garantir a socialização nos momentos de socialização. Porque a escola não é só depositar conhecimento na cabeça dos alunos. A escola é formar seres humanos, cidadãos. Isso exige estar presente – estar presente dentro da sala de aula e estar presente fora dela", diz.

Para isso, segundo ele, é necessário criatividade. Os próprios dados sobre tédio relatado entre os alunos após a sanção da lei federal indicam que há um novo desafio após o banimento dos celulares.

"Não é só sobre segregar o aparelho, é também sobre recriar atividades de socialização, de integração. É preciso reinventar o tecido social da escola", afirma.

Um tempo de adaptação tende a ser necessário. Lichand cita um estudo recente do National Bureau of Economic Research sobre escolas dos Estados Unidos que adotaram bolsas magnéticas para impedir o acesso aos celulares durante a jornada escolar. A pesquisa encontrou aumento inicial de incidentes disciplinares e queda no bem-estar dos alunos, mas esses efeitos diminuíram com o tempo, à medida que as escolas e os estudantes se adaptaram à nova rotina. Para o pesquisador, o resultado reforça que a restrição aos aparelhos exige que a escola construa, aos poucos, novas formas de convivência e interação social.

Confira o estudo completo, em inglês:

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