Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
mapa do crime

Quase metade das facções que dominam o tráfico no país são do Norte e Nordeste

Com regras próprias, grupos locais desafiam hegemonia do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital longe do Rio de Janeiro e São Paulo

Policial tenta conter fuga de presos no massacre de Manaus: região Norte virou ponto de disputa de facções por ser ponto estratégico do escoamento da cocaína do Peru e Bolívia. | MARCIO SILVA/AFP
Policial tenta conter fuga de presos no massacre de Manaus: região Norte virou ponto de disputa de facções por ser ponto estratégico do escoamento da cocaína do Peru e Bolívia. (Foto: MARCIO SILVA/AFP)

O surgimento de novas facções criminosas, algumas dispostas a alianças mas também ao confronto com grupos antes hegemônicos, como Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, vem tornando os estados do Norte e do Nordeste grandes barris de pólvora - na última segunda (2), 56 detentos morreram em rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus (AM) . Das 25 facções identificadas dentro de penitenciárias federais, em levantamento feito pelo Ministério da Justiça no ano passado, 12 (48%) eram dessas regiões.

No caso do Norte, a posição estratégica na rota da droga, vinda de países na fronteira, como o Peru, torna a relação entre facções ainda mais complicada.

“O quadro de convivência harmoniosa entre o PCC e o CV foi quebrado no ano passado. Em seus estados de origem e nas regiões mais próximas, há um controle maior por parte dos chefes, que não querem confrontos de grande proporção, que chamem a atenção da mídia. Isso só resulta em prejuízo para os dois lados. No Norte e no Nordeste, ainda que haja um pacto de convívio, as facções locais têm suas regras próprias. E, como são novas, ainda não têm a mesma experiência de grupos já consolidados, como os do Rio e de São Paulo”, analisa Roberto Porto, promotor de Justiça de São Paulo, professor de Direito Processual Penal na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e autor do livro “Crime organizado e sistema prisional”.

Pelos dados do Ministério da Justiça, que constam da pesquisa “Mapa de Ocupação por Facção Criminosa”, o grupo Família do Norte (FDN), protagonista da chacina ocorrida em Manaus, é o sexto com maior número de chefes presos nas quatro penitenciárias federais de segurança máxima, com 13 integrantes. Ao todo, foram listados 504 detentos.

Apesar de a facção amazonense ter um pacto de convívio com a carioca — dois chefes chegaram a ser presos juntos, em 2015,m em uma favela do Rio —, o grupo que comandou a chacina em Manaus segue regras próprias, como acontece em outras capitais do Norte e do Nordeste.

Reação do PCC

Mestre em antropologia social pela Universidade Federal Fluminense e ex-integrante do Batalhão de Operações Especiais (Bope) do Rio, o pesquisador Paulo Storani teme uma reação forte do PCC no Norte, devido à importância estratégica da região. Nos últimos anos, a rota de cocaína vinda do Peru para a Amazônia ganhou força.

“O PCC funciona como uma grande franquia, que precisa manter o controle do mercado, da origem à distribuição. Vencer é eliminar a concorrência. E ali há uma relevância estratégica, é uma grande porta de entrada da droga”, aponta Storani.

Em estados como a Paraíba, já há duas facções locais. No estado nordestino, há a Estados Unidos e a Okaida, cujo nome é uma referência à organização terrorista Al Qaeda. Em 2013, a Okaida declarou guerra ao PCC, que tinha um pacto com o grupo rival local.

Apesar da presença dos grupos locais, as facções paulista e carioca seguem presentes na maioria dos estados. Os reflexos da ruptura ocorrida no ano passado refletiram-se com motins em prisões de Boa Vista, em Roraima, e Porto Velho, em Rondônia. As rebeliões culminaram num total de 18 mortos, alguns deles decapitados, como ocorreu em Manaus.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.