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Depoimento

Quase um negócio de família

Amanda, 24 anos. Drogada, usuária, dependente química ou adicta? O que importa? Seja qual for o termo empregado, durante alguns anos de minha vida convivi com um mundo diferente do que a maioria dos adolescentes de classe média está acostumado. A traficante que se tornou minha fornecedora – moradora da favela do Parolin – logo passou a ser chamada de "tia": a tia Lu. Uma mulher de vida sofrida.

Embrenhar-se no mundo das drogas não se resume a conhecer uma tia Lu e nem está restrito a ir buscar "bagulho" para os menos corajosos: os que gostavam de consumir, mas não tinham a ousadia de descer até os becos sujos e encarar a realidade de uma sociedade desigual. Isso nunca foi problema para mim, dona de uma coragem distorcida, coragem que deveria ter sido empregada antes no desafio de viver e não na estratégia de se enterrar viva.

Minhas roupas ficaram largas em função da cintura que diminuía na mesma proporção em que minhas funções dentro do tráfico foram se ampliando, de acordo com o aumento da necessidade do uso da droga. Sim, porque, depois que me tornei viciada, o crack passou a ser uma necessidade, não mais um capricho ou mera curtição. De mula comissionada, passei a fornecedora de tia Lu. Era uma troca: ela vendia minha maconha e eu comprava suas pedras. Quase um negócio de família, era assim, pelo menos, que eu sentia na época.

Mas ela não era a única que trabalhava dessa forma. Todos tinham seus clientes preferenciais, ou seja, que davam mais lucro. A favela estava cheia de pequenos traficantes que sobreviviam do vício de poucos clientes, que de certa forma eram, a princípio, fidelizados com pequenas regalias. Depois que o vício toma conta, a necessidade de tratamento diferenciado deixa de existir.

Em meio a um turbilhão de mudanças que é viver uma adolescência mesclada à doença – a dependência química –, é fácil confundir interesse com apreço. Sei que, durante esse período da vida, depositei confiança nas pessoas erradas. Minha família não está fundamentada no interesse, mas no simples ato de querer bem.

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