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A aprovação do ECA Digital, que prevê limites ao acesso às redes por menores de idade, ainda traz incertezas em relação à maneira pela qual a aferição de idade será feita pelas plataformas. Com isso, o debate em relação à privacidade geral dos dados colhidos na internet causa preocupação.
Apesar disso, uma pesquisa realizada em janeiro deste ano, ainda durante o processo de aprovação do ECA Digital, mostra que para 72% da população, essa restrição para menores de 16 anos é necessária. Foram entrevistadas, pela ONG Family Talks e pela consultoria Market Analysis, 1.011 pessoas de todas as regiões do país e em diferentes classes econômicas.
Esse alto percentual de apoio da população, para Rodolfo Canônico, diretor-executivo da ONG Family Talks, é um indicativo de que as famílias percebem que o esforço delas chega a um certo limite e que é preciso o apoio do Estado, além de um maior compromisso das plataformas. O estudo mostra, por exemplo, que 58,8% dos entrevistados apontaram que as redes sociais prejudicam mais do que beneficiam crianças e adolescentes. Neste grupo, o apoio à regulação é significativamente maior.
Canônico diz que a própria aprovação do ECA Digital reforça isso, porque se mostrou acima de qualquer polarização política, o que pode apresentar uma mudança de comportamento em relação ao cuidado com crianças e adolescentes no ambiente digital.
“O documento foi aprovado por unanimidade em vários partidos e isso indica uma forte união da sociedade em prol do tema. Parece que todo mundo tem experiência negativa em casa, com redes sociais, e isso acaba motivando uma atuação que vai além de certas preferências ideológicas.”
O apoio à regulação das redes sociais para menores de idade, segundo o estudo, tem um caráter amplo e transversal. Entre homens e mulheres de todas as faixas etárias participantes, e com diferentes perfis de uso digital, a defesa dessa medida é consistente, mesmo que não se tenha filhos. Mais da metade das mulheres (52,1%) concorda totalmente, enquanto 42,7% dos homens têm a mesma opinião sobre o assunto. Na parcela de entrevistados com filhos, 51,7% daqueles com adolescentes em casa apoiam a restrição.
Percepção de danos
Para além do uso excessivo das redes sociais, que é prejudicial, a população reconhece que elementos do design dessas plataformas prejudicam crianças e adolescentes, o que torna as famílias ainda mais impotentes frente à resolução do problema.
“As redes sociais viciam adultos e tomam tempo da vida de todo mundo. É possível utilizar sem causar dano? Sim. Mas há elementos do design que propiciam essa dependência”, explica o diretor-executivo da ONG Family Talks. “Os efeitos são muito maiores em crianças e adolescentes que não estão plenamente desenvolvidas e têm muito menos recursos emocionais e psicológicos para gerenciar com algo potencialmente aditivo”, avalia.
O que leva a outro ponto importante apresentado pelo levantamento: 61,2% dos entrevistados atribuem majoritariamente aos pais a responsabilidade por minimizar os prejuízos das redes sociais na vida de crianças e adolescentes. A conclusão dos pesquisadores diante desse número é de que a população compreende e reconhece seu papel central no cuidado, mas se veem limitados ante a lógica das plataformas e sem os recursos necessários para intervirem.
Canônico cita, inclusive, a desigualdade estrutural no Brasil, em que alguns pais estão ausentes, quase que a maior parte do tempo pela rotina de trabalho, e famílias em que a mulher sozinha chefia o lar. Ele reforça que a família segue sendo o principal mediador do uso dos dispositivos digitais de crianças e adolescentes, mas questiona a real capacidade das famílias brasileiras de exercer essa missão.
“Hoje, uma mãe que trabalha, mora numa região periférica, é sozinha, gasta quatro horas por dia para ir e voltar do trabalho, que tipo de supervisão parental ela vai fazer? Que tipo de conhecimento ela tem a esse respeito? Ela vai saber instalar um filtro DNS no Wi-Fi de sua casa? Não. E há uma falha social abrangente por parte de empresas e do Estado também em apoiar as famílias a adquirirem capacidade educativa e formativa”, pontua.
Para ele, em uma sociedade em que um em cada três adultos são analfabetos funcionais, é complexo querer que as famílias, por conta própria, sem nenhuma política pública de apoio, consigam adquirir conhecimento suficiente para educar no mundo digital.
“Precisamos de políticas públicas de capacitação familiar para desenvolver as habilidades referentes à parentalidade digital; mas, hoje, quantos reais o Estado brasileiro gasta para isso? Quantos reais as empresas gastam? É totalmente insuficiente”, explica Canônico. Por isso, para ele, é preciso avançar em uma agenda regulatória, mas que inclua cada vez mais a ampliação dos recursos destinados a capacitar as famílias a educarem e viverem nesse mundo digital.
“Nosso papel em Family Talks é avançar também no desenvolvimento da parentalidade digital para fazer com que as famílias consigam finalmente ter condições mínimas de mediar a vivência das crianças nos ambientes digitais” finaliza.







