
Os estragos provocados pelas chuvas dos últimos dias em Curitiba e nos municípios metropolitanos expuseram as várias áreas de risco existentes na região. São construções perto de margens de rios, em cima de nascentes e próximas a morros muitas vezes cortados de maneira irregular, que potencializam os danos provocados por alagamentos e deslizamentos. Problemas que começaram há pelo menos três décadas e se agravam com o desconhecimento do perigo por parte da população e a falta de fiscalização do poder público. Situações rapidamente identificadas em uma volta pela região.
Veja no vídeo as áreas de risco percorridas pela reportagem
Na tentativa de expor o risco existente em áreas da região metropolitana de Curitiba (RMC), a Gazeta do Povo percorreu algumas localidades com o geólogo Renato Eugênio de Lima, diretor do Centro de Apoio Científico em Desastres da Universidade Federal do Paraná. Segundo o professor, algumas localidades já registraram processos geológicos semelhantes aos que ocorreram na tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, que contabiliza mais de 900 mortes neste ano.
A RMC oferece perigos que pedem a observação constante dos rios, das encostas e do solo onde comunidades estão instaladas. Ao analisar algumas áreas, o especialista constatou: ?Aqui vai existir acidente. Tem que discutir quando vai acontecer e não se irá acontecer?. Para ter um controle efetivo desses problemas, os municípios devem ter um mapeamento completo das áreas de risco. Contudo, segundo a Defesa Civil Estadual, as cidades da região não têm esse levantamento. Informação negada pelas prefeituras de Curitiba e Almirante Tamandaré, que estão entre os municípios mais afetados pela chuva na última semana e afirmam ter o mapeamento.
Movimento de terra
Um dos processos geológicos apontados por Lima é o fluxo de lama e detritos, registrado no distrito de Bateias, em Campo Largo, em janeiro de 2010. Fenômeno em que os sedimentos da encosta se movimentam de maneira incoerente, escorregando como uma massa sobre outras áreas.
O deslizamento translacional também foi constatado pelo especialista (veja quadro) e já havia sido registrado em 1999 na localidade de Jardim Paraíso, em Almirante Tamandaré. Mas, com o passar do tempo, o episódio que causou duas mortes caiu no esquecimento. Hoje, moradores constroem suas casas em cima da fundação das residências que ruíram na época.
A dona de casa Conceição Pereira da Silva, 57 anos, presenciou a tragédia de 1999. Lembra que naquela noite assistia a um jogo de futebol na tevê, quando as pessoas entraram em pânico quando o morro deslizou e ela não conseguiu dormir à noite. Apesar da viva lembrança, continua no mesmo local. ?Acho que vou ficar aqui para sempre. Graças a Deus não vai mais ter perigo.?
Percepção
Nas áreas visitadas pela reportagem é possível encontrar pessoas que parecem desconhecer os riscos, como Conceição, e outras que adotam medidas preventivas. Desde o Natal, a dona de casa Maria Dias da Mota, 73 anos, moradora do bairro Cachoeira, no limite de Curitiba com Almirante Tamandaré, sai de casa todas as noites com o marido para dormir em uma igreja. ?Tenho medo de dar uma enchente grande e não conseguir sair de casa?, diz ela.
No Cachoeira, casas ocupam o canal do rio e estão construídas em cima dos morros, onde aconteceram pelo menos dois deslizamentos em 2007. Segundo Lima, o movimento de terra está em evolução e áreas tinham de ser desocupadas e interditadas. A interdição foi a solução encontrada na Rua da Amizade, no Jardim Água Boa, em Campo Magro, onde ônibus não circulam mais pela via por causa de um deslizamento de terra em uma encosta próxima à rua.
Subterrâneo
Por baixo do solo surge outro processo perigoso: o afundamento na área do Aquífero Karst. O calcário se dissolve no subsolo até o dia que não aguenta o peso da superfície e afunda, gerando crateras. Almirante Tamandaré volta e meia sente as consequências desses afundamentos.
Há cerca de dez anos, a sede do Colégio Estadual Ambrósio Bini foi interditada devido a rachaduras e ao risco de afundamentos. No final de 2010, a Escola Estadual Professora Jaci Real Prado de Oliveira registrou o mesmo problema. Uma cratera de 18 metros de largura e 20 metros de profundidade destruiu o muro da escola e causou rachaduras no refeitório.
Confira no vídeo abaixo algumas áreas de risco mostradas pelo professor Renato Eugênio de Lima, da UFPR:








