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Noite curitibana

Sozinho na madrugada

Desconhecidos da maioria da população, higienizadores enfrentam muito mais do que o frio para deixar limpas as estações-tubos

Curitiba tem 235 pessoas que cuidam da limpeza de suas 351 estações-tubo: tudo é feito enquanto os usuários dormem | Fotos: Daniel Derevecki/Gazeta do Povo
Curitiba tem 235 pessoas que cuidam da limpeza de suas 351 estações-tubo: tudo é feito enquanto os usuários dormem (Foto: Fotos: Daniel Derevecki/Gazeta do Povo)
Depois da limpeza, higienizadores fazem papel de

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Depois da limpeza, higienizadores fazem papel de

Madrugada de qualquer dia da semana em Curitiba. A temperatura pode estar abaixo de zero. Mesmo assim, Agenor* permanece firme em uma das 351 estações-tubo espalhadas pela cidade. Ali ele não busca abrigo nem espera o ônibus madrugueiro. Está a trabalho, sua profissão é de higienizador e passa as noites limpando os dois tubos da estação e seu entorno, atividade que inicia por volta da meia-noite e termina pouco antes das 6 horas. Tudo para que, ao raiar do dia, os primeiros usuários do transporte coletivo encontrem o lugar em condições de uso.

Mas ao desempenhar esse importante papel, Agenor e seus 234 colegas de profissão quase nunca ouvem uma palavra de reconhecimento – "muita gente nem sabe que estamos aqui" – e ainda lidam com ameaças. Em bairros ricos ou pobres, em regiões centrais ou periféricas, quem fica sozinho na madrugada corre riscos constantes. Todas as noites há um bando de desocupados que parecem se divertir humilhando-os nas estações. "Passam de carro xingando a gente. Jogam ovos, latas de cerveja e pedras nos tubos", conta Edson*, outro faxineiro.

Lidar com assaltos faz parte da rotina. Trabalhando em uma estação localizada entre favelas, Edson viu recentemente marginais invadirem uma revendedora de carros, de onde levaram peças dos automóveis. Agenor, que trabalha em um bairro considerado nobre, também já presenciou um assalto a uma loja em frente a sua estação. "Os bandidos mostraram para mim que estavam armados. Disseram que iam levar os computadores da loja, mas, se eu ficasse quieto, não ia acontecer nada comigo."

Outro perigo é enfrentar os usuários de drogas que, além de surrupiarem as baterias instaladas nos tubos para acionar as catracas em caso de queda de energia, por vezes tentam roubar os objetos pessoais dos higienizadores, como celulares, relógios e roupas. "Se deixar, até cobertor e o nosso café eles arrancam da gente", conta Edson. "A polícia só vem quando não precisa", conclui José*, lembrando da vez em que precisou lutar com um dependente, que veio lhe atacar com uma faca. "Isso aconteceu às 2 horas. A polícia chegou às 5."

Segurança

A assessoria de imprensa da Ur­­ba­­nização de Curitiba S/A (Urbs), responsável pelo gerenciamento do transporte coletivo, afirma que, junto com a prefeitura, busca ampliar a segurança das estações-tubo com o auxílio de um grupo especial da Guarda Mu­­nicipal. A diretoria do Sindicato dos Empregados em Escritório e Manutenção nas Empresas de Transporte de Passageiros (Sindeesmat), que representa a categoria, diz não possuir dados sobre o assunto.

Na semana em que a reportagem iniciou a sua apuração, um profissional foi assaltado, caso que, como outros, não chegou ao conhecimento do sindicato. Segundo a empresa de transporte em que esse profissional trabalha, a pessoa também não registrou boletim de ocorrência na polícia.

Vandalismo

Como se não fosse difícil o bastante limpar a sujeira decorrente do fluxo de pessoas nos tubos, os higienizadores precisam remover as pichações produzidas por vândalos. "Se a pichação é com tinta ainda dá para tirar. Mas tem vezes que eles riscam os vidros, e aí não sai", diz Agenor. Ele afirma que, não fossem os faxineiro, as estações seriam ainda mais depredadas de madrugada. "Principalmente no fim de semana. As ruas ficam infestadas de pichadores. Se não tiver alguém cuidando, ou se a gente der bobeira, eles picham mesmo."

É fácil imaginar também como, sem a presença desses profissionais, os tubos seriam moradia certa para os sem-teto. Mas como diz Agenor: "Os mendigos, pelo menos, respeitam a nossa profissão. Eles nem chegam perto do tubo". Com tais argumentos, os trabalhadores alegam que a função que exercem vai além da limpeza. Ocupando os tubos, eles também desempenhariam um tipo de vigilância. Afinal, mesmo que terminem os afazeres antes dos seus horários, eles permanecem em alerta nas estações, em vez de voltarem para as suas empresas.

A assessoria da Urbs contesta o argumento dos higienizadores de que estariam fazendo o serviço de vigilância e alega que a função é exclusivamente de limpeza. Diante de vândalos e bandidos, a Urbs orienta aos higienizadores a não entrar em confrontos e acionem a Guarda Municipal ou a Polícia Militar. Quanto à permanência deles nos tubos mesmo depois de terminada a limpeza antes do tempo previsto, a Urbs afirma que é necessário o cumprimento das seis horas de trabalho nas estações.

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* Foram usados nomes fictícios a pedido dos entrevistados.

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