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Surpresas da igreja mais antiga do Rio

Convento de Santo Antônio (prédio à esquerda) foi um dos primeiros locais a ser tombado pelo patrimônio histórico no Brasil | Paulo Alvadia/Agência O Dia
Convento de Santo Antônio (prédio à esquerda) foi um dos primeiros locais a ser tombado pelo patrimônio histórico no Brasil (Foto: Paulo Alvadia/Agência O Dia)

A restauração do convento de Santo Antônio começa a revelar detalhes da mais antiga igreja do Rio, de 1608. Camadas originais de tinta são recuperadas, arcos ocultos por reformas reaparecem, o dourado das capelas tem o brilho restabelecido com a raspagem da purpurina e tinta-óleo que o cobriam.

O convento foi um dos primeiros tombamentos nacionais – em 1938, pelo atual Instituto do Pa­­trimônio Histórico e Artístico Na­­cional (Iphan). Por falta de segurança e de infraestrutura, a visitação não é permitida atualmente. Erguida no Morro de Santo Antônio (largo da Carioca, centro do Rio), a igreja completou 401 anos do lançamento de sua pedra fundamental. Mais antiga do que ela só havia a do Morro do Castelo, destruída.

O convento fica do lado direito da igreja de Santo Antônio. É uma edificação de três andares, datada de meados do século 18. No lado esquerdo do conjunto está a igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, já reformada e que, apesar do nome, não é administrada pela Ordem dos Frades Menores (franciscanos), responsável pelo convento de Santo Antônio.

Uma das surpresas do trabalho de restauração apareceu na capela de Nossa Senhora das Dores, uma das quatro do claustro (pátio interno ajardinado) do convento. A chefe da equipe de restauração, Rejane Oliveira dos Santos, conta que foram recuperadas talhas de madeira que remontam à primeira fase do barroco, do século 17. O tom original da pintura, em bege e azul, reapareceu sob várias camadas de tintas, com muito preto, o que sempre prejudicou a apreciação do estilo rococó, outra característica da Nossa Senhora das Dores. "Essa capela foi realmente uma grande surpresa. Conseguimos descobrir os projetos artísticos da época. Chegamos aos tons originais. Até mesmo o vermelho de um arco ressurgiu. As molduras das portas marmorizadas não apareciam, agora aparecem", festejou ela, para quem a busca do original é o mais importante do trabalho.

No interior da igreja, ressurgiu parcialmente o topo de três arcos originais do século 17, escondidos por paredes em reforma havia pelo menos 200 anos. "Na igreja, a grande descoberta foram os arcos. Eles compunham as portas da antiga galilé [construção arquitetônica na entrada de templos]", relatou o frei Roger Brunorio, museólogo responsável pelo acervo do convento. Ainda na igreja, os restauradores têm conseguido restituir o tom dourado das colunas salomônicas (em espiral, retorcidas), oculto pela oxidação e pelas pinturas feitas indevidamente no séculos 19 e 20. "O restauro é restituir o máximo possível da integridade do objeto. Daqui a cinco anos o convento estará maravilhoso", diz o frade. As escavações externas revelaram ainda uma outra novidade: as tubulações e as canaletas que traziam água para a cisterna, do fim do século 17, considerada a mais antiga do Rio e que está desativada.

As peças mais antigas do convento são duas imagens de Santo Antônio que estão à vista. A de Santo Antônio do Relento está na fachada da igreja, protegida por uma vidraça e voltada para a paisagem do centro do Rio e da Baía de Guanabara. A outra fica no interior da igreja. São trabalhos de 400 anos, presumem os especialistas.

O cômodo mais alterado do convento é o refeitório, ocupado pelo Exército de 1855 a 1901, que lá instalou um batalhão de infantaria. Antes da presença militar, o espaço foi usado pelo Arquivo Público.

A ocupação resultou na descaracterização do refeitório em relação ao restante do conjunto arquitetônico. Mas é no cômodo que fica uma das mais belas peças do convento: uma cruz de madeira do século 18, em ótimo estado de conservação.

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