
Em 18 estados brasileiros, 63 grupos de apoio à adoção têm ajudado a diminuir a grande fila de meninos e meninas que aguardam uma nova família em abrigos do país. São voluntários que compartilham experiências sobre adoção e ajudam a diminuir as preocupações e os preconceitos dos futuros pais. Essa militância dos pais adotivos em garantir a convivência familiar de crianças e adolescentes resultou na Nova Lei de Adoção e trouxe uma nova perspectiva para quem vive em instituições de acolhimento.O trabalho dos grupos é importante porque ajuda a fechar a conta da adoção no Brasil. No Cadastro Nacional de Adoção (CNA) há 4,4 mil crianças inscritas e 26 mil adultos pretendentes a adotar, mas a fila existe porque há exigências dos futuros pais com relação à idade preferência por bebês , cor da pele e sexo. O objetivo dos voluntários é mostrar que a adoção deve ser um ato de amor e, para isso, não são necessários tantos requisitos.
Permanência em abrigos
Uma das vitórias da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Angaad) foi a instituição de um tempo máximo de permanência nos abrigos. Antes da Nova Lei de Adoção, os garotos e garotas eram literalmente esquecidos pelo poder público nesses espaços. Agora, o Judiciário deve fazer uma reavaliação a cada seis meses e, no final de dois anos, decidir se a criança voltará para a família biológica ou se será encaminhada à adoção.
Em Curitiba, há 13 anos a professora aposentada Hália Pauliv desenvolve um trabalho com os pretendentes e já conseguiu mudar o posicionamento de muitos pais. O juiz Fabian Schweitzer que ficou na 2.ª Vara da Infância, Juventude e Adoção de Curitiba por quase dez anos diz que, antes do trabalho do grupo de Hália, as adoções tardias (de crianças crescidas e adolescentes) eram raras. Hoje, a capital se destaca nesse cenário. A professora e Schweitzer implantaram o primeiro curso para pretendentes à adoção no Brasil e, atualmente, isso é uma exigência legal.
O primeiro grupo de apoio no Brasil surgiu em São Paulo, em 1993. Um dos fundadores foi o engenheiro civil Paulo Sérgio Pereira dos Santos, que é filho e pai adotivo de sete crianças, além de três biológicas. Ele conta que o trabalho ganhou amplitude em função da parceria com o Judiciário. "Percebemos que os pais precisavam de orientação." Atualmente, Santos faz da sua história de vida um incentivo para outros pretendentes. Entre os sete filhos, há casos de adoções tardias, inter-raciais e de crianças com deficiência. "A experiência de multiplicidade é algo riquíssimo. Aprendemos a doar e a dividir."
Quebra de preconceitos
Para o promotor carioca Sávio Bittencourt Silva, o movimento nacional de apoio à convivência familiar de meninos e meninas nasceu com os pais adotivos. Ele afirma também que os grupos ajudam a quebrar preconceitos em relação à adoção porque não existem outros espaços em que há liberdade para expressar sentimentos, inseguranças e preconceitos. "Os grupos têm o papel de mostrar outras possibilidades aos pretendentes." Silva começou a militar nessa causa após adotar duas filhas e se deparar com a realidade nos abrigos. Ele acredita que, para reverter o quadro do grande número de abrigamentos, é preciso acabar com a cultura da institucionalização no país.
Lindacir Rocha Bernardon, mãe por adoção, criou há dois anos a Associação Mato Grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção e também desenvolve projetos com o Judiciário. No curso há um "pré-natal" e os pais aprendem como funciona o CNA e os desafios de formar uma nova família. Ela conta que no final dos encontros a maioria dos pais altera o cadastro e diminui as exigências. Outro impacto positivo foi mudar a percepção de que apenas pessoas ricas podem adotar.







