
A superabundância de ditadores, déspotas e revolucionários que se tornaram autoritários nas terras ao sul da fronteira norte-americana gerou um gênero de literatura que pode ser chamado de Romance Político Latino-Americano o qual inclui A festa do bode, de Mário Vargas Llosa, e O outono do patriarca, de Gabriel García Márquez. O último lançamento nesta tradição de livros é o novo romance de Norberto Fuentes, A autobiografia de Fidel Castro, que tenta contar a história do antigo líder de Cuba em suas próprias palavras quer dizer, quase. O "autorretrato" que emerge das páginas desse romance é o de um sobrevivente maquiavélico: um egomaníaco que se identifica com a revolução, mas que não é leal a uma causa, mas a uma ideologia; não aos seus compatriotas, mas apenas à sua própria ambição.
Jornalista e acadêmico de Hemingway, Fuentes já foi tiete da revolução e integrou o círculo de amigos íntimos do próprio Fidel, mas se opôs à execução de dois funcionários do Exército em 1989 e caiu em desgraça, tentando até fugir da ilha em um barco. Desde 1994, quando ganhou permissão para sair do país, denuncia Fidel por sua "ditadura pessoal absoluta e disposição para fazer o que for necessário para continuar no poder".
Como Fuentes retrata seu antigo camarada e atual inimigo? Ele faz com que este Fidel se autointitule "o grande arquiteto da destruição. O grande fornecedor da morte": "As ruínas e o sangue são nosso trabalho. Anos antes, houve uma tarde de desespero, fome e solidão. Encontrava-me nos degraus da Universidade de Havana e sabia que o único caminho para satisfazer meus desejos era uma revolução do povo cubano. Todas as oportunidades oferecidas a mim até aquele momento me transformaram em algo de segunda qualidade: advogado, radiojornalista, representante do Partido Ortodoxo, gângster universitário, atirador de beisebol, ídolo". E assim, a fim de evitar seu destino de mediocridades, este Fidel fictício faz "um pacto com o demônio" e paga para "entrar na História" com "ruínas e sangue".
Quando Fuentes para de tentar destacar a maldade de seu herói e foca na narrativa da história, conseguimos parar de tentar descobrir quão preciso este Comandante pode ser e, assim, saborear sua criação como sendo um personagem fictício convincente às vezes arrogante, engraçado, pomposo, ignorante, autoabsorto e autoiludido. Ele é alguém ansioso por contestar teorias de que sua raiva do capitalismo provém do seu nascimento, fruto de uma relação ilícita entre um fazendeiro próspero e sua cozinheira. Ele exulta em saber como a crise dos mísseis e seus laços com a União Soviética o transformaram em parte permanente da História e colocaram o mundo à beira de um apocalipse nuclear. Ele faz longos discursos sobre a importância de se escolher os inimigos certos e sobre a arte da propaganda. Ele também se gaba de suas muitas conquistas sexuais e canta as glórias de sua própria beleza.
Ao mesmo tempo, este Fidel é altamente inseguro e perigosamente passivo-agressivo. Ele bate em seu irmão Raúl e entra continuamente em atrito com Che Guevara, a quem ele vê como concorrente e ameaça. Na verdade, a relação Fidel-Che anima as partes mais eletrizantes do romance. O Fidel de Fuentes queixa-se invejosamente da aura carismática de Che e de seu semblante, que é muito fotografado, alegando que "ele era um bastardo sortudo que sempre mostra uma cara séria em momentos decisivos". Fidel declara que as ações de Che "favoreceram a promoção de sua própria imagem e não a da Revolução Cubana", além de declarar que "a ilha era pequena demais para nós dois".
Finalmente ele decide: "eu tenho de me livrar dele". Quando Che realiza uma viagem ao Congo, o Fidel de Fuentes diz que "fez tudo que podia para que a CIA não soubesse da localização de Che". Quando Che foi morto na Bolívia, ele reclamou que seu rival havia se tornado "nosso último santo". "E foi assim que ele me venceu na reta final. Por fora, o dilema por que passam os grandes homens da História continua o mesmo. Vida ou glória", lamenta o Fidel de Fuentes. Enquanto Che se tornou um ícone póstumo do idealismo revolucionário e da rebeldia jovem, Fidel se tornou o líder envelhecido de um anacronismo comunista de um pequeno país insular.
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A autobiografia de Fidel Castro. Texto de Norberto Fuentes com tradução (para o inglês) de Anna Kushner. W.W. Norton & Co. US$ 27.95. O livro ainda não foi traduzido para o português.







