
Papelão, canos de PVC, EVA (etil-vinil-acetato) e outros materiais de baixo custo estão ajudando idosos com dificuldades motoras a conquistar mais autonomia e independência em atividades corriqueiras, como pentear o cabelo, beber água ou se alimentar. O projeto desenvolvido pelas terapeutas ocupacionais Lorena Lopes e Lorena Pimentel, de Natal (RN), usa matéria-prima barata para confeccionar ferramentas e órteses que facilitam a vida dos pacientes e seus cuidadores. Elas criaram cabos universais para escovas de dente, barbeadores, talheres, copos e outros utensílios domésticos que dão mais segurança na hora de manusear os objetos. O PVC é usado para fazer bengalas e andadores, reduzindo o custo de equipamentos que ajudam na mobilidade dos pacientes.
A rotina dos hospitais públicos onde as terapeutas trabalham foi a inspiração para a criação dos adaptadores. "O público é muito carente e não tem dinheiro para comprar equipamentos que os ajudariam nas ações mais simples do dia a dia. Aplicamos técnicas de terapia assistiva para dar mais qualidade de vida a esses pacientes", diz Lorena Pimentel. As terapeutas produziram as primeiras peças com materiais descartados pelas instituições, como caixas de papelão. "A ideia era baratear as ferramentas disponíveis para dar acesso à tecnologia a mais pessoas", explica Lorena Lopes.
Não foram só os pacientes que foram beneficiados com o projeto. A produção de órteses foi fundamental também para os cuidadores, que puderam delegar aos idosos algumas pequenas tarefas cotidianas, o que, além de contribuir para a construção da autonomia e garantir alguma independência, ajuda a reduzir a sobrecarga nos cuidados com o paciente.
Para replicar a ideia, as terapeutas promoveram oficinas de terapia assistiva para treinamento de cuidadores dos pacientes. O projeto, que faz parte do Programa de Internação Domiciliar da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sesap) do Rio Grande do Norte, foi uma das iniciativas premiadas pelo concurso Talentos da Maturidade do ano passado. Em 2009, foram realizadas duas oficinas, bancadas pelas próprias terapeutas. Com o dinheiro da premiação, pelo menos 50 pessoas por mês receberão o treinamento até o fim deste ano.
Soluções simples, como a almofada de alpiste, para prevenção de escaras feridas comuns em pacientes acamados por longos períodos , deram mais conforto a pacientes pobres da periferia de Natal. "A almofada de alpiste tem uma maleabilidade semelhante à da água e não esquenta. Garante mais bem-estar a quem passa o tempo todo deitado, imobilizado", explicam. A técnica é apropriada a climas quentes e secos, como o do Nordeste. "Não funciona com a umidade", alerta Lorena Lopes.
Idosos com sequelas de derrames cerebrais, amputados ou com dificuldade na coordenação motora fina puderam, aos poucos, reassumir cuidados com a higiene e a alimentação diária por meio das órteses de baixo custo. "Ao proporcionar mais autonomia e independência ao paciente, há também um ganho no aspecto psicológico. Ele se sente mais confiante e útil, e o cuidador também consegue se organizar melhor no atendimento do idoso em casa", observa Pimentel. As oficinas de terapia assistiva incluem também orientação sobre como deixar a casa do idoso mais segura, com o uso de barras de apoio, instalação de corrimões e uso de material antiderrapante no piso.
Internado em casa
As oficinas de terapia assistiva fazem parte de um programa maior de atenção especializada ao idoso no Rio Grande do Norte. O Programa de Internação Domiciliar (PID) da Secretaria de Estado da Saúde foi criado em 2005 e faz o acompanhamento dos doentes crônicos em casa. Quinze equipes multidisciplinares acompanham os pacientes por períodos de 30 a 60 dias pós-alta hospitalar em quatro instituições de referência no estado. O atendimento pode ser feito por equipes reduzidas (médico, assistente social, enfermeiro e técnico de enfermagem) ou ampliada (com fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, nutricionista e psicólogo), dependendo da complexidade do caso. De acordo com a coordenadora do PID, Riudete Martins de Souza, o plano terapêutico individual traçado a partir de visitas médicas semanais ajuda a reduzir a reinternação dos pacientes e a taxa de mortalidade. "Em média, tivemos 20% menos internações de pacientes crônicos depois da implantação do programa", explica. Com os profissionais de saúde dentro de casa, a família também ganha mais confiança e segurança para conduzir o tratamento do idoso. "É o caso da nossa primeira paciente atendida no PID. Ela estava internada havia seis meses. Com o programa de apoio domiciliar e a orientação dos familiares, em duas semanas ela já estava caminhando novamente".








