
O primeiro transplante de ovário feito no Brasil, realizado há nove dias em Maringá (Noroeste do estado), promete renovar as esperanças de mulheres que lutam contra a menopausa precoce. A cirurgia foi realizada com duas irmãs gêmeas de 29 anos. A receptora, a turismóloga Mariana Gerep de Morais, parou de ovular e menstruar aos 23 anos. Ela recebeu três centímetros do tecido germinativo (que contêm os óvulos) da irmã, a nutricionista Elisa Gerep de Morais, e com isso pode voltar a engravidar.
Os médicos ainda precisam esperar três meses para se certificar de que não haverá rejeição por parte da receptora. Em caso de sucesso, as principais beneficiadas serão pacientes que entraram no climatério antes do tempo e que, por isso, não conseguem engravidar. A técnica foi desenvolvida originalmente para beneficiar mulheres que pararam de ovular por causa da exposição e destruição das células do ovário em tratamentos de radioterapia e quimioterapia contra o câncer. De cada dez pacientes com leucemia, por exemplo, nove têm o problema. Nesse caso, seria preciso congelar partes do próprio ovário e, após a cura, voltar a implantá-lo no corpo, reiniciando os ciclos ovulatórios, através de um autotransplante.
No caso do transplante de uma pessoa para outra, as chances de rejeição são de quase 100%. O diferencial de Mariana e Elisa é o fato de serem gêmeas univitelinas, ou seja, é como se fossem clones naturais uma da outra. A esperança é que o organismo de Mariana entenda que o que foi recebido da irmã não é um corpo estranho, mas parte de si mesmo. Neste caso, os leucócitos (células de defesa do corpo) não criam anticorpos contra as células transplantadas.
De acordo com o médico e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo Carlos Gilberto Almodin, que desenvolveu a técnica há 13 anos, o procedimento ainda é experimental. Até o momento, já foram realizados 12 transplantes no mundo mas, no caso do Brasil, a dificuldade está em encontrar pacientes. "Queremos divulgar a técnica e treinar mais médicos, mas é preciso que oncologistas e ginecologistas encaminhem essas mulheres."
Sofrimento
A menopausa precoce impõe grande sofrimento à mulher, tanto físico quanto psicológico, explica o professor da Universidade Federal do Paraná e membro do conselho científico da Sociedade Brasileira de Climatério, Jaime Kulak Júnior. "Quando o problema ocorre antes dos 40 anos, a mulher ainda não teve filhos ou então ainda está no auge de sua vida sexual e reprodutiva, e isso tem um efeito devastador", explica.
Hoje, as maiores causas do problema são as genéticas caso de Mariana, que tem histórico na família e relacionadas ao câncer, além da histerectomia, quando a mulher retira o útero. Na menopausa, as células germinativas perdem a capacidade de responder ao hormônio folículo estimulante (FSH) e deixam de ovular. Com isso, cai a taxa de estrogênio, progesterona e testosterona no corpo, e iniciam-se os sintomas da menopausa, além de doenças relacionadas, como as cardíacas e a osteoporose.



