
Na sala de espera para uma consulta médica, Mathilde Titonelli Ramos, 77 anos, conta que para fugir dos remédios caminha e atravessa dois bairros durante o exercício diário. A professora aposentada diz que só toma medicação por insistência do geriatra. "Eu fui criada sem nada de remédios, sem chá ou fortificante. Também nunca precisei de médicos. Mas há cinco anos meu marido morreu e, a partir daí, eu é que comecei a ir nas consultas", conta.
Mathilde toma três remédios um para a diabete, outro para a pressão arterial e um terceiro para a tireoide. Depois da consulta, sai desanimada: "Eu queria que o médico falasse para eu parar com os remédios. Mas não tem jeito, vou ter que continuar".
O geriatra da professora aposentada é Mauro Roberto Piovezan, do Departamento de Neurologia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná. Segundo ele, Mathilde é uma exceção. "Os idosos tomam em média cinco remédios diferentes, com prescrição médica", afirma. Uma pesquisa feita com 2,9 mil pessoas com idade entre 57 e 85 anos, e divulgada no final do ano passado pelo Jornal da Associação Médica Americana, confirma esse quadro. Segundo o estudo, nos Estados Unidos, cinco ou mais remédios são tomados ao mesmo tempo por mais da metade dos idosos.
Para Piovezan, o problema maior ocorre quando as pessoas tomam remédios por conta própria. "Sempre tem um remedinho para a dor, um anti-inflamatório. Esses remédios são usados junto com os que foram prescritos pelo médico e aí pode acontecer o problema", diz. Entre os riscos da interação medicamentosa estão o sangramento gástrico, úlcera, tonturas e até fraturas ocorridas por causa de desmaios.
O médico ressalta, por outro lado, que as pessoas não podem chegar à terceira idade ignorando as mudanças físicas. "Há mudança na composição corporal, se acumula mais gordura e menos músculos, a parte renal é alterada e muitas drogas são excretadas pelo rim. A função do fígado muda e também há diminuição da água dentro da célula. Com isso, medicamentos hidrossolúveis são absorvidos de maneira diferente", afirma. Além de considerar as mudanças, é preciso lembrar que uma avaliação médica é indispensável. "Antes de mais nada é preciso um bom controle clínico para ver se o idoso tem condições de usar medicamentos", afirma.
Avaliação médica
Joana Marcondes Felicciano, 68 anos, resolveu procurar um médico depois de passar meses com problemas para dormir. A secretária aposentada já havia experimentado todas as medidas indicadas por conhecidos. Mas a acupuntura, chás, leite morno e o "remedinho milagroso" um calmante indicado por uma amiga não surtiram efeito. Ela conta que bastou a consulta com um geriatra para ela voltar a dormir melhor. "Durante a consulta ele fez uma verdadeira entrevista comigo. Até que eu disse que tomava diurético à noite. Foi só mudar o horário e voltei a dormir feito uma pedra", conta.
Piovezan afirma que esse tipo de situação é muito comum, mas que é preciso que o médico seja cuidadoso o suficiente para saber investigar todos os problema que podem estar levando ao desconforto ou doença. "Se o médico pergunta o que o paciente está sentindo e esquece de perguntar que medicamentos estão sendo tomados, pode haver erro de diagnóstico", afirma. O problema também pode acontecer na farmácia. "Quando eles têm uma dor, podem ir direto à farmácia para tratar os sintomas, e esquecem que deveriam estar procurando um médico para descobrir a causa", diz.
Outros cuidados
Ficar esperando as doenças e a necessidade de remédios não faz parte dos planos do delegado da Polícia Cívil aposentado Ari José Elias, 83 anos. Desde muito jovem, ele adotou uma dieta saudável e nunca bebeu ou fumou. Ele também faz exercícios regularmente. Na companhia da mulher, é aluno assíduo da hidroginástica. Mesmo com todos os cuidados, Elias conta que já sofreu com a interação de medicamentos. "Já tive dois remédios que não me fizeram bem, fui ao médico e ele trocou", conta. Hoje, ele se orgulha de ter na prateleira somente três medicamentos. O aposentado diz que não toma remédio sem a prescrição e que procura a orientação médica sempre que tem alguma dúvida. Essa atitude deveria ser adotada por todos, segundo Piovezan. "Sempre acontece de um paciente ter problemas por ter tomado o remédio da amiga ou do vizinho. Eles acham que se o remédio faz bem para algum conhecido, vai ser bom para eles também, o que é um grave erro", ressalta.



