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“Quando desci do barco na primeira vez que vim, me senti o próprio Robinson Crusoe. Vi aquele mato todo e fiquei admirado, maluco. É o meu lugar, pensei”.Nego Blue, músico | Jonathan Campos/Gazeta do Povo
“Quando desci do barco na primeira vez que vim, me senti o próprio Robinson Crusoe. Vi aquele mato todo e fiquei admirado, maluco. É o meu lugar, pensei”.Nego Blue, músico| Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Ilha do Mel - O nome de registro é José Luís Rodrigues, mas pode chamá-lo de Nego Blue. Na Ilha do Mel, ele é uma celebridade. Um astro que anda de chinelo e cumprimenta todo mundo. Blue, 49 anos, pisou pela primeira vez na ilha aos 14 anos. Disse para a mãe que ia passar o final de semana no Litoral com amigos e que voltava na segunda-feira. Ficou um ano. "Me senti o próprio Robinson Crusoe. Vi aquele mato todo e fiquei maluco. É o meu lugar, pensei."

Para amenizar o sofrimento da mãe, Blue mandou cartas. Só não sabia ao certo como preencher o endereço do remetente. Afinal, ele dormia onde dava. Uma das paradas prediletas era o posto abandonado da Marinha, ao lado do farol. "Era um casebre bacana. Só que pendia para o lado. Era meio caverna do Batman."

Certo dia, Blue voltou ao continente para fazer compras e encontrou a mãe no trapiche de Pontal. Ela havia avisado a polícia e o juiz, e já estava entrando no barco para ir atrás do filho. Blue voltou para a capital.

Estudou até a sétima série e passou a fazer o roteiro Curitiba-Ilha com frequência. Virou amigo de pescadores e moradores, largou o posto da Marinha e passou a dormir na casa de conhecidos. Vó Maria, uma das que mais garantiu pouso, ganhou música, tocada até hoje. As primeiras paradas eram em Brasília. Encantadas, na época, era um mistério. "Era uma selva. Era difícil chegar lá."

Certo dia, Blue resolveu arriscar. Andou por quase três horas e descobriu que em Encantadas também havia pescadores. Gostou, e como de costume, ficou vários meses. A música passou a ser mais frequente do lado da gruta do que do lado do farol. O pessoal de Brasília cobrou – Nego, afinal, tinha primeiro parado ali e não podia mudar de lado sem mais nem menos. Com diplomacia e agenda cheia, a questão foi superada. "Atualmente faço shows dos dois lados. Não sou de Brasília ou de Encantadas. Sou o Nego da Ilha do Mel."

O cantor, que hoje é disputado, viveu seus primeiros tempos longe da proteção materna dando aulas de violão, fazendo eventuais pescarias e "qualquer tipo de trabalho que surgisse". No continente teve tantos empregos que nem lembra. "Fui mecânico, vendedor de loja, borracheiro. Um monte de trampos ruins."

Nesse meio tempo, Blue já fazia pequenos shows na ilha e no Litoral. Não desgrudava do violão. Treinava pegadas e batidas. Certo dia, passou a tarde tocando nas pedras da Praia Brava de Matinhos. Juntou bastante gente para ver. Blue fez uma sequência digna de Muddy Waters (músico considerado o pai do Chicago Blues). Foi quando Polaco, guitarrista experiente da noite curitibana, soltou a frase. "É um Nego Blue". Pronto. O apelido pegou.

Foi levado para Curitiba. Fez shows no antigo Tetro Universitário de Curitiba e também fez amigos, entre eles os roqueiros do Blindagem. "Eles deram uma força no meu primeiro disco", conta ele, que já gravou dois CDs.

Chegou a cantar no Pará, onde foi tocando por meses em troca de cama e comida. Blue só ficou mais caseiro quando casou. A mulher da sua vida, quem diria, estava ao lado da casa da mãe. "Eu chegava da festa e sempre encontrava aquela morena linda saindo para trabalhar."

De fato casou. Tem cinco filhos e vive só de música. Mora em Curitiba, mas passa a temporada na Ilha do Mel, tocando de segunda a segunda. Tem entre os admiradores integrantes de bandas como Djambi e Capital Inicial. Flávio, baixista do Capital, acompanhava a apresentação de Nego em uma bar na Vila Brasília, há duas semanas. "Sempre ficamos de fazer um som. Mas nunca dá certo. Acabamos só bebendo", diz Nego Blue, o astro pop da Ilha do Mel.

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