
Não deveria, mas a ginástica financeira do custo de vida fica mais pesada depois dos 60 anos. Para o brasileiro idoso, a inflação em 2009 foi de 4,09% (IPC-3i), pouco acima (0,14 ponto porcentual) do cálculo do Índice de Preços ao Consumidor da população em geral (IPC-BR), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que foi de 3,95%. A despesa que mais pesou para as famílias com idosos foi a de habitação, que registrou em 2009 alta de 4,98% e respondeu por 38% da inflação.
"Em geral, as famílias com idosos estão sujeitas aos mesmos aumentos das outras famílias. O que diferencia é o quanto a casa com idosos consome de certos produtos e serviços, fazendo estes reajustes serem mais pesados para o custo de vida dos cidadãos seniores", explica o economista da FGV André Braz.
Para as famílias formadas por pelo menos metade dos integrantes com mais de 60 anos de idade, alimentação, habitação e saúde são os itens que mais comprometem o orçamento doméstico. As taxas do IPC-3i para esses setores superaram as registradas para a inflação geral. O aposentado Edir Barbosa, de 73 anos, nem precisa dos estudos econômicos para saber o quanto ele deve esticar a aposentadoria para dar conta dos compromissos do mês. Ele e a esposa moram com três dos sete filhos do casal. E trazem os gastos controlados para não estourar o orçamento. "A alimentação oscila um pouco, mas o que pesa mais são as tarifas públicas e de serviços", avalia. Água, luz, telefone e gás são itens de necessidade básica para a família. "Daí a gente faz economia em outras contas." Um dos arranjos que Barbosa faz é na administração dos tratamentos de saúde. Não é para menos. De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2003, a última divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), gastos com saúde médicos, hospitais, laboratórios e planos de saúde ocupam 15% da renda dos idosos. Na casa de Edir e Amélia Barbosa, a ajuda dos filhos é importante para custear o plano de saúde dela. "Faço os meus tratamentos e exames médicos pelo SUS. Tive plano de saúde enquanto trabalhava, mas não deu mais para bancar o particular para os dois", explica ele. Amélia sofre de artrose e precisa de acompanhamento médico constante. "Não dá para depender do postinho", diz o marido. Os medicamentos de uso contínuo para hipertensão eles pegam na rede pública. Mas sempre têm de complementar a farmácia de casa. Nem com as contas na ponta do lápis a vida financeira tem folga. "Deixamos de fazer muitas coisas por falta de dinheiro e para não estourar o orçamento. Preciso fazer uma reforma na casa, por exemplo, mas sempre estou adiando as obras."
Maria Massoli Paris, de 81 anos, "investe" o salário mínimo que ganha de aposentadoria nas compras dos medicamentos que não consegue no postinho. Faz as consultas na rede pública de saúde e já não consegue mais acompanhar os preços do mercado. "Minha aposentadoria não acompanha os reajustes. Cada vez que vou ao mercado é um susto", diz.
Medição
A inflação da terceira idade, medida pela FGV desde 1990, ajuda a balizar o poder de compra de uma população que cresce acima da média das outras faixas etárias. E, com base nesses dados, pode orientar políticas sociais para a terceira idade como a isenção de tarifas de transporte, meias entradas ou descontos proporcionais , além de nortear a execução de programas que contemplem a assistência a idosos.
Um exemplo é a proibição dos reajustes de valores por avanço de idade nos planos de saúde, prevista no Estatuto do Idoso, que tem impacto menor no custo de vida dos idosos pobres do que programas de popularização do acesso a medicamentos, como os genéricos ou as farmácias populares.








