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Era digital

Vovô é seu amigo na rede?

Usuários maduros são grande parte do público das redes sociais, que usa as ferramentas para driblar a solidão, reencontrar os amigos e conversar com familiares que vivem longe

Nilce Garcia faz tudo pela internet: de bate-papo com amigos e família a documentos para a cidadania espanhola | Hugo Harada/ Gazeta do Povo
Nilce Garcia faz tudo pela internet: de bate-papo com amigos e família a documentos para a cidadania espanhola (Foto: Hugo Harada/ Gazeta do Povo)
Marlene Burigo e o neto Gabriel, via MSN, durante a entrevista: economia de tempo e dinheiro para matar a saudade |

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Marlene Burigo e o neto Gabriel, via MSN, durante a entrevista: economia de tempo e dinheiro para matar a saudade

Há 50 dias, a professora aposentada Marlene Burigo, 61 anos, de Pato Branco, no Sudoeste do estado, resolveu atender a um convite feito por ex-alunos, amigos e parentes: abrir uma conta na rede de relacionamentos Facebook. Com a ajuda via MSN (serviço de mensagens instantâneas da Microsoft) de uma sobrinha que mora em Curitiba, Marlene foi adicionando os conhecidos. De repente, deparou-se com uma ex-aluna que não via há 15 anos. A mensagem deixada pela ex-pupila tocou fundo: "Agora vou voltar a ter aulas de culinária!", disse, referindo-se às lições na cozinha de outros tempos. A partir daí, amigas de longa data, que não apareciam para um café há vários anos, passaram a pedir ‘autorização de amizade’ no mundo virtual. "Foi muito agradável. Revi pessoas com quem não falava há muito tempo." Mas, além das amizades que ressurgiram, o perfil no Facebook ajudou Marlene a manter contato com clientes – hoje ela é cerimonialista e a ferramenta a ajuda a atender melhor as noivas exigentes. Chegou até a realizar o casamento de uma ex-aluna, com quem retomou contato na internet.O Facebook, no entanto, não é páreo para o MSN. É através dele que ela pode matar a saudade do netinho Gabriel, que mora em Curitiba, e dos filhos. "Ajuda muito a matar a saudade. Não substitui o olho no olho, que é muito importante, mas já ajuda, com a vantagem de que a gente economiza nas ligações", conta.

Maduros acima de 50 anos estão entre os usuários que mais crescem na internet. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad 2009), divulgada em setembro, 6,2 milhões de pessoas nessa faixa de idade (15,2% do total de internautas) acessaram a rede mundial de computadores no ano passado, um aumento de 148,3% entre 2005 e 2009, que representa um ritmo de crescimento superior ao registrado nas demais faixas etárias.

Nos Estados Unidos, o público de 50 a 64 anos dobrou nas redes sociais como Facebook e Linkedin, de acordo com um estudo da Pew Internet: 47% dos internautas ativos são dessa faixa etária. A taxa de aumento em um ano foi de 88% entre 50 e 64 anos e de 100% nos perfis com mais de 60 anos.

A mesma pesquisa mostra a preferência do perfil maduro. Enquanto os sites de relacionamento são os preferidos, o Twitter é adotado por 11% entre 50 e 64 anos e apenas por 5% dos acima de 60 anos.

Do Orkut para o mundo

Quem vê o álbum de fotografias da escriturária aposentada Nilce Garcia, 57 anos, com recordações de passeios a Pamplona, Madri e Santiago de Compostela, nem imagina que muitos dos sonhos dela não seriam possíveis sem a ajuda do Orkut, a rede social mais popular entre os brasileiros. Foi ali que Nilce obteve grande parte das informações sobre o caminho de Santiago de Compostela, que percorreu em 2007. "Lá tem umas comunidades muito boas, com dicas e informações sobre o caminho. Também conheci muitas pessoas que já haviam ido e que me ajudaram."

A desenvoltura de Nice com a ferramenta é total. Quando se aposentou, há nove anos, ela mal mexia no computador, que só utilizava para o trabalho. "Fiz curso de informática logo em seguida para aprender a mexer, aí fiz um e-mail, abri uma conta no Orkut (em 2004) e fui adicionando as comunidades", conta. Logo aconteceram os reencontros com amigas de escola deixadas em Carlópolis, onde passou a infância, há mais de 30 anos. Uma brasileira que ela conheceu durante a viagem à Europa, e de quem não tinha nem telefone e endereço, também reapareceu. Aproveitou para matar a saudade de parentes de Joaquim Távora (interior do Paraná) e Rancharia (interior de São Paulo), além dos dois netos. "Nem sempre dá para visitá-los, e por telefone sai meio caro, então, essa é uma ajuda e tanto."

Assim como Marlene, Nice também toma cuidados. Quase não usa o MSN e a webcam é palavra descartada. "Não gosto de MSN, prefiro deixar um recado no Orkut. Eu deixo um, a pessoa deixa outro, se é algo mais privado eu mando um e-mail e assim vai. Muita intimidade pode gerar episódios desagradáveis", aconselha. Com planos para a próxima viagem a Santiago de Compostela, ela espera ansiosa pelo dia 22, quando irá tirar o visto para a Espanha. Já tem a cidadania no país e até mesmo registro eleitoral na província de Jaín, onde nasceram os avós. Conta que fez tudo pela internet, onde há muita informação. E especifica: "Procurei nas comunidades do Orkut...".

Acesse com moderação

Quando usada para fortalecer ou retomar os laços afetivos do mundo real de quem já passou dos 50 anos, as redes sociais são recomendadas por médicos e encorajadas por familiares. Para especialistas, essa é uma forma de estimular a sociabilidade. "O uso das redes sociais impede o isolamento e evita a depressão, que acomete muitos idosos. Nessa fase da vida, muitos não têm tanta perspectiva de futuro, pois se realizaram profissionalmente, criaram os filhos. O fato de ter uma distração e poder se relacionar traz uma carga muito positiva", avalia a médica Juliana Varassin, do Hospital das Nações, de Curitiba.

O alerta é para que a ferramenta não contribua para a solidão. Muitos idosos, ao invés de investirem na recuperação de relações fragmentadas, fecham-se nas amizades virtuais. "As redes sociais são benéficas, desde que usadas de maneira e forma adequadas", explica a psicóloga e gerontóloga Joice Peters Schiavinato.

O estímulo à memória é outro ponto a favor das redes sociais, assim como o uso do computador como um todo. Juliana relata que, entre os pacientes maduros que atende, vê uma notável diferença entre os que usam a ferramenta e o computador e os que não são adeptos. "Estudos comprovaram, através de ressonância magnética, que os que fazem uso rotineiro da ferramenta têm a memória mais desenvolvida, mais desenvoltura para conversar, ler e interpretar, pois a atividade estimula o cérebro".

No caso daqueles que são repreendidos pelo cônjuge ou filhos por conta da abertura de uma conta nas redes sociais – há quem veja o hábito como algo exclusivo de jovens e adultos, o que não é verdade –, o conselho é conversar e tentar aliar o direito à individualidade com o respeito às posições do companheiro. De acordo com Joice, é importante estabelecer objetivos em relação ao uso, para não causar desapontamentos entre casais e filhos. Pedir ajuda aos filhos e netos na hora de criar um e-mail ou responder recados pode ser uma forma de estimular a convivência entre gerações e ainda transmitir segurança a quem está ao redor.

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