
O ano que transformou a biografia de Fernando Henrique Cardoso para sempre foi 1994. Em um período de poucos meses, o então ministro da Fazenda mudou não apenas a sua história como a própria história do país. Em fevereiro, lançou o Plano Real, que acabaria com a pior epidemia inflacionária da história brasileira. Em março, deixou o governo Itamar Franco para ser candidato à sua sucessão. Em outubro, foi eleito presidente da República.
Mas não foram os fatos, por si só, que marcaram a virada na vida de Fernando Henrique. Houve também uma mudança ideológica que, para muitos, acabou sendo igualmente surpreendente. Como estudioso, FHC era um marxista. No Senado seu primeiro cargo político teve uma postura mais centrista. Na eleição presidencial, porém, acabou se aliando a grupos mais à direita, como o antigo PFL (atual DEM) e o PTB.
Hoje, dia em que completa 80 anos, Fernando Henrique continua sendo, para os analistas, um homem com duas biografias distintas. Como sociólogo, sua importância parece inconteste (embora haja a impressão de que muitos intelectuais tenham um preconceito contra sua obra em função, justamente, da atuação política). Como político, seu legado é mais controverso. Para alguns, FHC é o iniciador da social-democracia no país. Para outros, um intelectual que se tornou pragmático demais quando chegou ao poder.
Marxista
O cientista político Antônio Octávio Cintra, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), conta que a impressão que Fernando Henrique passava antes de entrar para a política profissional era a de um intelectual sólido, de esquerda, dedicado à análise de O capital, de Karl Marx. "Os trabalhos dele sempre impressionaram muito. A análise dele sobre a escravidão no país é brilhante", afirma, em referência ao livro Capitalismo e escravidão no Brasil meridional.
O sociólogo, que já tinha atuação política, impressionava até mesmo aos futuros adversários políticos, conta Raul Pont, hoje presidente do diretório petista no Rio Grande do Sul. "O Cebrap [Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, de que FHC participava] era muito importante como maneira de tentar entender o Brasil e seus problemas", conta Pont, prefeito de Porto Alegre durante a presidência de Fernando Henrique. "Mesmo quando ele fundou o PSDB, imaginávamos que poderíamos traçar caminhos paralelos. Não tínhamos conflito", diz o petista.
Foi no Cebrap e no MDB, primeiro partido a que foi filiado, que Fernando Henrique acabou organizando o grupo central que o seguiria até a Presidência. Um de seus colegas nos dois casos foi José Serra, escolhido por FHC como candidato à sua sucessão, em 2003. Serra, até hoje, fala com admiração de seu professor. "No começo do meu exílio, fui aluno dele num curso de Sociologia do Desenvolvimento na América Latina, em 1966, e li tudo o que ele havia escrito até então". Para Serra, que acompanhou Fernando Henrique na fundação do PSDB, o livro Dependência e Desenvolvimento na América Latina foi a obra mais importante dos anos 60 para a compreensão da política regional.
Aliança
A campanha presidencial de 94 acabou sendo mais fácil do que qualquer um poderia prever. Fernando Henrique, com o fim da hiperinflação, havia se transformado no "homem do momento". Nem Lula, mais tarde seu grande arquirrival, foi páreo para ele. No entanto, a aliança pluripartidária de centro-direita arquitetada por Fernando Henrique eliminaria definitivamente a unanimidade em torno de seu nome.
Para os entusiastas de seu projeto político, o presidente fez o que precisava fazer. O deputado federal Reinhold Stephanes (PMDB-PR), ministro da Previdência de FHC, conta como o governo enfrentou um dos problemas centrais das finanças públicas. "Foi o governo do Fernando Henrique que introduziu o conceito de cálculo atuarial para saber quanto era preciso arrecadar e quanto podia ser gasto. Também cortou diversos privilégios que traziam rombos para as contas públicas", lembra.
O paranaense Euclides Scalco, que foi secretário-geral da Presidência no segundo mandato de FHC, diz que o "espírito de conciliação", demonstrado inclusive na formação da aliança partidária para a eleição, é uma das características centrais de Fernando Henrique. "Tem muita coisa que está aí que se deve ao governo dele. Não só o fim da hiperinflação, mas os programas sociais e o surgimento de novas multinacionais brasileiras. Se não fosse o programa de privatizações, isso não seria possível", afirma.
Claro que os antigos correligionários de esquerda jamais perdoaram FHC. Na última semana, como preparativo para o aniversário dos 80 anos, porém, surgiu um fato novo. A presidente Dilma Rousseff, discípula de Lula em quase todos os aspectos, publicou carta elogiando o tucano e pontos importantes de seu governo. Pode ser um primeiro indício importante de que a conciliação, a arte mais exercida por Fernando Henrique, pode ser mais uma vez possível.Interatividade
Na sua opinião, qual é a importância de Fernando Henrique Cardoso para o país?
Escreva para leitor@gazetadopovo.com.br
As cartas selecionadas serão publicadas na Coluna do Leitor








