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Entrevista

“A Universidade não quer mudar”

Curitiba – Ex-ministro da Educação, ex-reitor e professor da Universidade de Brasília (UNB) e membro do Instituto de Educação da Unesco, o senador Cristovam Buarque (PDT- DF) é uma das principais referências quando se fala em educação no Brasil. Buarque foi titular do ministério até janeiro de 2004, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o demitiu por querer alguém fora do meio acadêmico para preparar um projeto de Reforma Universitária. Longe do governo, Buarque continua discutindo a educação brasileira e, com uma visão bastante peculiar, propondo mudanças para o ensino superior em palestras e conferências realizadas no Brasil e no exterior. "Se a academia não se reformar, vai ficar obsoleta", diz o senador, que, no ano passado, publicou um resumo de suas idéias em "A Refundação da Universidade".

Para o professor, as atuais instituições acadêmicas precisam evoluir para uma "pós-universidade", em que barreiras como disciplinas, endereços e seleção sejam abolidas. Em entrevista à Gazeta do Povo, ele afirma que o projeto do MEC trata de questões administrativas e financeiras das universidades, mas não traz uma proposta de reforma e que a própria comunidade acadêmica evita mudanças.

Gazeta do Povo – Como o senhor vê a atual proposta de Reforma Universitária que está para ser enviada ao Congresso?Cristóvam Buarque – A proposta que eu vi não tem nada de reforma universitária. São alguns ajustes na administração e no financiamento da universidade. Reforma universitária exige mudar a estrutura. Exige mudar a duração dos cursos da universidade. Exige mudar radicalmente a idéia de que universidade é presencial. Ela agora não é mais presencial. Ela vai ser sobretudo à distância. Exige mudar o conceito de público e privado, que não tem nada a ver com estatal e particular. Hoje, quando falamos em estatal, pensamos em público. Ela pode ser estatal sem ser pública. Essa reforma que está aí não tem nada de reforma.

A proposta do MEC não discute a reestruturação da própria universidade?Não. Por exemplo, confundem cota com reforma universitária. Cota diz respeito a dívida racial que o Brasil tem. Acho que não entenderam nada do que é reforma universitária.

Como a universidade está sendo reformada em outros países? Qual o futuro da universidade?Estou achando que a universidade não vai fazer a reforma e aí ela vai ser superada por outras entidades. A universidade, para não ser superada, precisa se transformar em uma pós-universidade. Algumas entidades estão fazendo isso. Estou dando uma palestra na Universidade Aberta da Catalunha que está fazendo um pouco disso. Os cursos não exigem que o aluno vá lá fisicamente.

E esse conceito de público e privado?É em função do interesse do curso para o público e do interesse do curso para o privado. Tem curso que é de interesse público, mesmo que seja dado em uma universidade particular. Formar professor de física e matemática. Isso é de interesse público. Tem cursos que são dados nas universidades estatais que são de interesse privado. O que interessa não é a propriedade da universidade, o que interessa é o produto.

Discutir aspectos administrativos e de financiamento não é importante?É importantíssimo que se discuta formas de financiamento. Mas isso não é Reforma Universitária. É como você dizer que o financiamento para você fazer uma reforma em uma casa é a reforma. A reforma da casa é uma coisa, o financiamento é outra. Maior autonomia de decisão para as universidades é reforma, mas, na verdade, as universidades não querem usar autonomia. As universidade têm medo de serem autônomas e elas não são ousadas para mudar o currículo. Elas têm medo de não serem reconhecidas pela própria comunidade. A comunidade universitária é conservadora. Ela acha que não tem que mudar, só pedir mais dinheiro.

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