Os vereadores de Reserva, na região Central do estado, devem decidir nos próximos dias o futuro político do atual presidente da Casa, Flávio Hornung Neto (PMDB). Ele confessou o assassinato, no domingo, do presidente municipal do PCdoB, Nelson Vosniak, e está foragido desde que a prisão preventiva foi expedida. A lei eleitoral impede somente que condenados pela Justiça exerçam cargos políticos. Mas como Flávio está sendo procurado pela polícia e pode ser preso a qualquer momento, os vereadores é que decidirão pelo afastamento ou não do cargo. O suplente é o advogado José Rosney Rocha, que já foi diplomado pelo Tribunal Regional Eleitoral e está habilitado a ser empossado.
A Câmara deve se reunir em sessão extraordinária nos próximos dias para decidir quais os procedimentos serão adotados.
Com 26 anos e solteiro, Flávio Hornung Neto está no seu segundo mandato como vereador e representa um grupo familiar que rivaliza com os Martins no mando político do município há mais de 50 anos. As disputas eleitorais são acirradas e muitas vezes resolvidas na brutalidade. De acordo com moradores ouvidos pela reportagem da Gazeta do Povo, é comum políticos desrespeitarem a lei do desarmamento e andarem armados pela cidade. Em famílias tradicionais de Reserva, ainda persiste o costume de presentear os rapazes com revólver.
Repercussão
O deputado federal Jamil Murad (PCdoB-SP) é esperado em Reserva nos próximos dias. Ele integra a comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. O pedido foi feito pelo dirigente estadual do partido, Ricardo Gomyde. "Não vamos deixar esse caso passar impune", destaca, dizendo não ter dúvidas sobre a motivação política. O secretário nacional do PCdoB, Walter Sorrentino, esteve no Paraná ontem para acompanhar o caso. Ele afirmou que não há precedente de igual nível de uma agressão política em outra região do Brasil contra um dirigente comunista e vê no ocorrido no interior do estado uma atitude "anticomunista" e "atrasada politicamente".
O último dia de vida de Nelsinho, como era conhecido o dirigente do PCdoB, foi bem agitado. Ele almoçou numa festa paroquial em uma comunidade rural e prestigiou um torneio de futebol em outra. Foi ainda a um pesque-pague, no final da tarde. Eufórico, mostrava a todos a edição de domingo da Gazeta do Povo, que trazia reportagem sobre o avanço do PCdoB na cidade. Quando o dia começava escurecer, ele chegou à sede do jornal que fica em frente à casa de Flávio. A perseguição teria começado depois que ambos se avistaram nas proximidades da praça central.
Sobrevivente
Flávio deve responder pelos crimes de homicídio e tentativa de homicídio, já que dois tiros atingiram Giovani Welp Pinto, que está hospitalizado em estado grave. Outra pessoa que estava no carro alvejado não foi ferida. Carlos Rodrigues Oliveira Filho prestou depoimento em Maringá, por receio de voltar a Reserva, e desmentiu a versão de Flávio. O Instituto de Criminalística deve entregar um laudo sobre o caso nos próximos dez dias, já que o autor dos disparos alega que seu carro foi fechado pela vítima, que teria lhe apontado uma arma.
A Gazeta do Povo conseguiu falar com o sobrevivente ileso apenas por alguns instantes. A ligação de celular era ruim e não permitiu que Carlos contasse tudo o que aconteceu no domingo. Ele disse apenas que estava na cidade de Telêmaco Borba, quando recebeu um telefonema de Nelsinho, sobre uma proposta de colaborar com o jornal. Foi até Reserva e encontrou o dirigente em um pesque-pague. De lá seguiram, em dois carros, para conhecer o jornal. "Vamos sair para fazer umas fotos da cidade. Deixa o carro aí e vem com a gente", teria sido o convite de Nelsinho, segundo o relato de Carlos.
O sobrevivente contesta todas as declarações dadas por Flávio na delegacia. Afirma que quando passaram em frente à casa onde estava o presidente da Câmara e outros familiares, Nelsinho foi xingado, mas ignorou o fato. Logo depois, Flavio teria seguido o grupo. "Nós não perseguimos ninguém. Como um Fiat Uno mil ia perseguir uma caminhonete 250?". Na contramão, teria disparado seis vezes, sem sair do carro. "Se a gente tivesse armado, como ele disse, haveria troca de tiros. Mas não, foi à queima roupa", argumenta.
Carlos acredita que só está vivo pela "graça de Deus". "Quando eu me levantei, no banco de trás, ele apontou a arma para mim e disse que era a minha vez. Mas não saiu nenhum tiro. Ele começou a recarregar o revólver e eu vi que era a minha chance de sair correndo. Ele deve ter achado que tinha matado os dois e não queria deixar uma testemunha", avalia. Carlos é solteiro e mora em Reserva há um ano. Formado em Geografia, dá aula nos principais colégios da cidade.



