Olho vivo

Sem carro

Alguns secretários municipais de Curitiba não escondem a irritação: eles perderam o direito de ir e vir com carros pagos pelo contribuinte. Na sexta-feira, a prefeitura devolveu 180 veículos à locadora Cotrans, neles incluídos os carros de representação usados pelo alto escalão. Economia de R$ 10 milhões, calcula-se. Apesar do corte, ainda restam 800 veículos da mesma empresa alugados à prefeitura, aos quais se soma à frota própria de outros mil carros populares, utilitários e de carga pesada.

Carandiru?

E se acontecer uma rebelião em algum presídio estadual, assistiremos a um Carandiru – aquele massacre de 111 detentos que chocou o mundo em 1992? Sob a nova direção e orientação, a hipótese dantesca não pode ser descartada. O temor começou a ser verbalizado (e temido) por autoridades do Palácio Iguaçu.

Algumas das maiores revoluções introduzidas no sistema de transporte coletivo que serve a Curitiba e região metropolitana datam de quase 40 anos. Veem dos três períodos em que esteve à frente da prefeitura de Curitiba o arquiteto Jaime Lerner.

A primeira inovação à época considerada revolucionária foi a implantação das canaletas exclusivas para ônibus ligando as extremidades da cidade; outra foi a criação da Rede Integrada de Transporte (RIT), que integrou às linhas de Curitiba as de cidades vizinhas que fazem ligação com a capital. Não necessariamente na mesma ordem, a terceira grande inovação foi a criação tarifa única: todos os passageiros de todas a linhas integradas passaram a pagar um só valor e a rodar quantos quilômetros precisassem ou quisessem pagando uma só vez.

Quatro décadas depois, o sistema – que serviu de modelo até internacional – mostra sinais de que está em marcha a ré. Um indício visível do retrocesso é a prometida greve de motoristas e cobradores que, sem prazo para terminar, deixará Curitiba e cidades vizinhas sem transporte coletivo.

Eles reclamam que as empresas de ônibus em que trabalham lhes devem parte de seus salários. Como ninguém é obrigado a trabalhar sem ganhar, não se pode afirmar, em princípio, que a greve seja injusta ou ilegal – apesar dos efeitos danosos que terá para 2 milhões de pessoas que diariamente usam o sistema.

E por que esse é um dos sinais da marcha a ré? Porque foi jogada à beira da falência a autossustentabilidade do sistema. Ele já não sobrevive sem que os governos municipal e estadual subsidiem a tarifa – isto é, que cubram a diferença entre o custo real e o valor que o passageiro deixa na roleta.

A origem do desequilíbrio é política. Em 2005, o então vice-prefeito baixou a tarifa para ganhar a eleição de prefeito que disputaria no ano seguinte. Depois, a partir de 2010, quando quis preparar o caminho para eleger seu sucessor, foi combinado que os preços seriam mantidos abaixo do necessário. A prefeitura se encarregaria de cobrir o prejuízo por meio da concessão de subsídio.

Os movimentos populares de junho de 2013, que protestavam contra o aumento das passagens, pôs os políticos outra vez no canto do ringue. E dá-lhe subsídios. Tantos, que ficou insuportável para que um só ente (no caso, a prefeitura de Curitiba) arcasse com tudo. O outro ente, o governo estadual, responsável pelas linhas intermunicipais, também precisaria entrar com sua parte.

Assim, ficou definido que Curitiba daria R$ 4,5 milhões por mês e o governo R$ 7,5 milhões, perfazendo o necessário para cobrir o prejuízo de R$ 12 milhões. Há mais de dois meses, o estado não cumpre a sua parte (deve quase R$ 16 milhões) e as empresas de ônibus também não recebem. Daí a alegação de que não têm caixa para regularizar os salários, abrindo as portas para a greve de seus empregados.

Diante da situação, o prefeito Gustavo Fruet tomou uma decisão radical: deixará ,a partir do mês que vem, de fazer repasses para as empresas metropolitanas; pagará o subsídio apenas para as empresas urbanas de Curitiba. E que o governo estadual "se vire" para acertar as contas com as que servem outros municípios.

Ou seja, o fim está próximo para uma história de quase 40 anos de integração tarifária. Sobrará, por enquanto, apenas a integração física.

Mas o recado é muito mais grave: o prefeito quer se isentar de responsabilidade pela greve prevista para se iniciar de madrugada. É assunto agora apenas do governo estadual, que, se pagar os atrasados, pode evitar a paralisação.

Isso é só o começo: em fevereiro, data-base do dissídio de motoristas e cobradores (eles querem 20% de aumento), a batalha será mais cruenta.

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