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Derrotado na eleição presidencial com um "até breve" que deixou adversários, correligionários e eleitores intrigados, José Serra ainda não definiu seu destino político – que aliás não depende só de sua vontade –, mas já resolveu pegar firme no ofício do contraditório.

Começa por uma autocrítica partidária: acha que há "uma desproporção imensa" entre o que o PSDB está fazendo e o que deveria fazer. O partido se perde em combates internos referidos em eleições futuras, enquanto, na opinião dele, deveria estar preocupado em "dar uma resposta" aos quase 44 milhões de eleitores que optaram pela oposição em outubro último.

"Não podemos deixar esse eleitorado sem representação. Precisamos convencer essas pessoas de que não jogaram seus votos fora. Quem votou em nós queria que ganhássemos, mas sabia que poderíamos perder. Logo, a oposição é tão legítima quanto o governo; expressa a vontade do eleitor e qualifica a democracia."

Na concepção de Serra, isso só acontecerá se a oposição não se amedrontar, tiver posições claras, for ativa, não se omitir, resumindo: "Não jogar parada, de olho em 2014, esquecendo-se de que uma eleição presidencial não é um acontecimento de 45 dias de campanha; é resultado de quatro anos de atividades."

A receita, diga-se, não foi seguida pelo autor, cujo discurso nos anos que antecederam a última campanha durante os quais foi governador de São Paulo esteve muito distante de cumprir as premissas por ele postas agora.

E, mesmo como candidato, José Serra foi ambíguo em relação ao então presidente Luiz Inácio da Silva, por não querer bater de frente com a popularidade dele, a quem só deixou de elogiar quando ficou claro que o adversário capitalizara a ambiguidade e que o eleitorado, na dúvida, ficaria com o produto original.

Assumir a oferta do braço para torcer não faz o estilo de Serra, que, na prática, reconhece parcialmente o equívoco ao constatar: "Uma das objeções do eleitorado ao candidato oposicionista estava no fato de o PSDB não ter sabido fazer oposição. Para muitos eleitores, quem não sabe ser oposição também não sabe ser governo".

A admissão é parcial porque, na visão dele, caberia ao partido ter exercido esse papel e não ao governador, cujo desempenho depende em muito das boas relações com o governo federal.

Agora, longe dos compromissos de um cargo administrativo, o ex-governador sente-se liberado para retomar a vida partidária. Sem mandato nem tribuna oficial, por ora Serra o faz na condição de personagem dono de capital que não pretende desperdiçar. Partindo de um princípio: "É a existência de uma oposição robusta, clara, leal aos interesses do país, que prova a existência da democracia". Não se trata, segundo ele, de fazer oposição sistemática ou não. "Isso é bobagem, nas grandes democracias do mundo essa questão não se coloca."

O essencial é o exame e o debate da realidade. "O Brasil tem um grande problema fiscal, há a disputa abjeta por cargos entre partidos, há o desequilíbrio macroeconômico evidente, o vexame do Enem, a imperícia diante de catástrofes. Em suma, há uma vasta agenda a ser discutida e uma série de cortinas fechadas a serem abertas pela oposição."

Serra defende que os oposicionistas estejam atentos aos movimentos do governo. "Ele fará acenos aos adversários e à classe média. Apelará ao nosso tradicional bom-mocismo. Isso com a intenção de nos dividir e reduzir nosso ímpeto. Quando chegar perto das eleições, voltarão ao vale-tudo, às enganações, às bravatas e calúnias."

"Não podemos cair na esparrela." Cobrando e criticando o governo, mas, sobretudo, defendendo os próprios princípios. "Precisamos mostrar quem, de fato, defende a social-democracia, denunciando que o PT adotou as bandeiras, mas subverteu as práticas, banalizou o que havia de pior no poder público."

Por onde começar? A base, para José Serra, é a reconstrução da unidade do partido, a partir de um mandamento cuja observância considera indispensável ao êxito de qualquer projeto: "Não ajudarás o adversário atacando teu colega de partido".

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