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A tenacidade e o sangue-frio de José Serra fizeram dele o maior vencedor da eleição de domingo. Aliou-se ao PMDB, elegeu seu poste, derrotou os adversários internos e, num lance de sorte cronológica, habilitou-se para uma liderança política qualificada para tratar com os efeitos da crise internacional sobre a economia brasileira.

O governador de São Paulo lutou para obter o êxito político e os maus ventos da fortuna determinaram o fracasso das ortodoxias financeiras que beneficiaram (em todos os sentidos) aquele tipo de político e empresário que "tem medo do Serra".

A facção papeleira do PSDB tornou-se um ingrediente tóxico. No início de outubro, quando Serra criticou o Banco Central ("esses caras estão destruindo o país com essa política monetária"), alguns tucanos quiseram baixar-lhe o sarrafo do centralismo democrático. Depois do mea culpa de Alan Greenspan, o "maestro" da farra americana e da corrida da banca às burras de todas as Viúvas do mundo, o discurso conservador tornou-se uma peça de antiquário. Surgirá outro, mas ainda precisa ser formulado.

Há três meses era possível um cenário no qual Geraldo Alckmin chegaria ao segundo turno na disputa pela prefeitura de São Paulo. Se perdesse, a culpa seria de Serra. Se vencesse, a vitória seria dele, e de seus aliados. Nesse caso, uma vitória de Aécio Neves em Belo Horizonte transformaria a candidatura de Serra à Presidência num fundo de derivativos apodrecidos.

Aconteceu o contrário. Aécio não tropeçou porque seu candidato teve que lutar pela vida em Belo Horizonte, mas porque contrariou a prudência da política mineira e se meteu na disputa de São Paulo, apoiando Alckmin. Nisso, teve o discreto apoio de Tasso Jereissati, batido em Fortaleza pela petista Luizianne Lins.

O governo está capturado numa armadilha de juros altos e câmbio volátil. O Banco Central já dispôs de 25 bilhões de dólares para impedir que a moeda americana vá sabe-se lá para onde. Seus gênios sabem que qualquer cotação do dólar acima de R$ 2 significa uma dolorida pressão inflacionária que obrigará Nosso Guia a rever sua teoria da marola. Além disso, estão sobre a mesa os sinais de que o comissariado petista pretende abrir os cofres do Banco do Brasil e da Caixa para investir em empresas estratégicas. Olhada de longe, essa iniciativa bem intencionada ecoa os antecedentes de crises mundiais passadas. Olhada de perto, pode significar uma aventura do governo, beneficiando um pedaço do empresariado, tornando-o eternamente grato pelo favor. É a velha e boa "nova classe", com a qual os grão-petistas tanto sonham, desde que seu gênio contábil Delúbio Soares revelou-se um biscateiro.

Nos últimos trinta anos deram-se duas tentativas de transformação da economia nacional num regime de capitanias. A primeira, ocorrida em 1976, não passou de uma formulação do velho BNDE. A segunda, vitoriosa durante o tucanato, foi a privataria.

O resultado político da eleição municipal balançou o navio, mas posição do barco será determinada pela economia. Nela, infelizmente não há urnas eletrônicas.

Como Serra administrará o capital adquirido, não se sabe. Sabe-se menos ainda como seus adversários administrarão o quadro que o fortaleceu.

Elio Gaspari é jornalista.

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