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Eleições 2008

Com família, sem caretice e de portas abertas

Há poucos dias, a pesquisadora da UFPR Araci Asineli da Luz, especialista em questões de infância e adolescência, surpreendeu-se num simpósio com a fala de um representante da iniciativa privada – um interessado em questões de educação. Os professores, disse, não sem razão, devem lembrar aos alunos que vão ser pais um dia, aos 30 e poucos anos. "Mas muitos deles já são pais. E damos aulas para diversas adolescentes grávidas", protesta Araci, diante desse exemplo do descompasso que ainda rege o discurso em torno da juventude. Não causa espanto que muitas políticas cheirem a mofo. "Não se fala com o jovem. Como é que pode haver política que funcione?", questiona.

A secretária de estado da Criança e da Juventude, Thelma Alves de Oliveira, bem poderia fazer coro com Araci. Ela até hoje está pasma com a postura dos shoppings em relação ao público jovem. "Curitiba tem de aprender a ser mais acolhedora e tolerante. É uma cidade muito excludente e conservadora", lamenta a mulher que promove no Paraná o pacto da infância e da juventude, mas que volta e meia, bate com a cara na porta. Em outras palavras – reina a caretice.

A bandeira de Thelma é conhecida – a moçada precisa de cinemas, de áreas de lazer, de espaços de produção cultural. Mas não faltam obstáculos impedindo o impulso que eles têm de se agregar e expressar, desejo que ficou declarado nas conferências estadual e nacional para a juventude, ocorridas no primeiro semestre deste ano.

Em miúdos, o pensamento sobre a juventude está só engatinhando, mas corre o risco de nascer marcado pelo mesmo autoritarismo e paternalismo que ainda marcam as políticas públicas brasileiras. O assunto renderia um fórum em dias de eleição, o que provavelmente não vai acontecer. "Nunca antes nesse país" houve tantas políticas sociais, infelizmente acrescidas de dependência do estado, impedindo a autonomia necessária ao setor. Quem faz, sabe.

O educador Rodrigo Navarro, um dos coordenadores da Chácara dos Meninos de 4 Pinheiros, em Mandirituba, comenta que as políticas voltadas para "os pais, seus filhos e os pobres moços" são globalizadas. Ao lado do educador Fernando Góes, Navarro desenvolve, às próprias expensas, a reaproximação de parte dos 80 garotos abrigados da chácara com suas famílias. Eles sentem na pela a ausência de uma política que funcione. "Na maioria das vezes os profissionas especializados não existem. E esbarramos em situações simples", diz.

Ano passado, os dois educadores conseguiram a reinserção familiar de dois irmãos, na Vila Rio Bonito. Uma vitória, já que ainda é baixíssima a taxa de retorno para casa. Mas, justo a casa para onde foram os meninos era minúscula, sem condições de recebê-los. Faltou telha, tijolo e carinho da sociedade. A solução apontada pelos especialistas é que o orçamento municipal voltado para esses setores seja especificado, deixando claro até onde se pode ir. Não raro, um esforço tremendo para implementar um projeto esbarra não só na falta de migalhas, mas numa burocracia infernal. O preço do atraso, sabe-se: é só tentar contar quantos adolescentes dormem na Praça Rui Barbosa – exercício que todo gestor público deveria se forçar a fazer.

Nos últimos três anos, a implantação dos Centros de Referência em Assistência Social (Cras) acenou algumas saídas. Sabe-se que é da porta para dentro que começa boa parte dos dramas da infância e da juventude. E o Cras existe para cruzar a porta, acompanhar as famílias. Já são 26 unidades em Curitiba, preferencialmente em regiões de pobreza e de violência. São 35.561 famílias assistidas pelo programa, empreitada que, em breve, deve gerar um índice inédito na capital, o de vulnerabilidade social. A diretora de Proteção Social Básica da Fundação de Ação Social, Maria de Lourdes San Roman, aposta na melhora de dados para ampliar o alcance do programa. "Não tenho dúvida de que investir na família é mais barato do que qualquer outra ação."

É de consenso. Sugestões aos políticos para que as famílias não fiquem eternamente na fiúza do poder público não faltam. A da secretária Thelma Alves de Oliveira é que a ação não seja centralizada e se espraie pelos espaços públicos que já existem. "Por que não criar uma escola de pais?", diz. A estrutura dos colégios bem poderia ser utilizada pelas famílias, reforçando os laços e a proximidade entre pais e filhos. Idem para as igrejas, idem para a associação dos moradores.

Para Araci, o alvorecer das políticas para a família também é assunto da hora. Com um senão: tem de deixar de ser emergencial, visar geração de renda, com acompanhamento "para os pais enxergarem além do que o muro aponta." Ela não pisca: "Que tal uma cooperativa?" Está dada a largada.

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