
Enquanto o governo federal tenta barrar a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras ou incluir outras investigações para desviar o foco, a oposição no Senado acredita que o maior ganho com as investigações será a exposição pública dos problemas que ocorrem há anos na administração da estatal. Entre as denúncias a serem averiguadas está a aquisição da refinaria de Pasadena (EUA), em 2006, que acabou resultando num prejuízo de US$ 1 bilhão para a Petrobras.
Mesmo com a instalação oficial da CPI que a oposição espera que ocorra na terça-feira , o senador oposicionista Alvaro Dias (PSDB-PR) não descarta a possibilidade de a comissão terminar sem um relatório "contundente". "Não podemos criar uma falsa expectativa, até porque o governo tem maioria esmagadora na Casa. O mais importante é que a CPI gere transparência e um debate da população sobre o assunto", afirma. Como têm bancada maior, os governistas poderão indicar mais senadores para compor a comissão.
O receio da oposição é de esvaziamento das discussões, como ocorreu em 2009, quando Alvaro coordenou outra comissão parlamentar que investigou a Petrobras. "Nós nos retiramos da CPI denunciando que o governo havia dominado completamente a comissão", conta. Situação parecida ocorreu em 2012, quando foi criada uma CPI mista (da Câmara e do Senado) para investigar as conexões políticas do bicheiro Carlinhos Cachoeira, que envolviam tanto tucanos quanto petistas.
Medo
Para Alvaro, o Palácio do Planalto demonstra "medo" ao tentar barrar a CPI e fazer ameaças à oposição dizendo que irá investigar outros assuntos na comissão. O pedido de inclusão de outros assuntos no objeto de investigação da comissão foi a saída encontrada pelo governo para atingir os prováveis adversários da presidente Dilma Rousseff (PT) nas eleições deste ano: Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB).
A ideia governista é que a CPI investigue também as suspeitas de formação de cartel na licitação de trens em São Paulo, que atinge os tucanos, e o Porto de Suape, administrado por Campos.
O cientista político Fabrício Tomio analisa que tanto a base governista quanto a oposição podem sair perdendo com a CPI caso a estratégia do governo vingue. "O ano eleitoral é o motivo fundamental [para a instalação da comissão]. É estratégico para a oposição tentar expor publicamente a gestão da Petrobras e pode ser estratégico para o governo ampliar o foco das investigações", diz Tomio.
Porta arrombada
Alvaro Dias, porém, acredita ser improvável que o governo consiga pôr a estratégia em prática, já que o pedido de ampliação do foco da CPI é antirregimental. "Querem misturar óleo e água", diz. O senador também não descarta a possibilidade de a oposição ir à Justiça para impedir a manobra do Planalto. "Seria como arrombar uma porta, uma prepotência que fere o regimento", afirma.
O senador paranaense ainda diz não acreditar que a pressão governista vá levar senadores a retirarem as assinaturas do requerimento de criação da CPI, protocolado na quinta-feira na direção do Senado. "Quem assinou foi convicto", diz. Pelo regimento da Casa, os senadores podem retirar suas assinaturas até a meia-noite do dia em que o requerimento for lido em plenário. A oposição quer que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), faça isso na terça-feira.
É uma chance de abrir a caixa-preta da estatal, diz economista
O economista Neio Peres Gualda afirma que a CPI da Petrobras pode ser um passo essencial para garantir mais transparência aos atos da estatal. "A empresa sempre foi uma caixa-preta", diz ele. Apesar disso, Gualda não descarta a possibilidade de que a comissão acabe prejudicando o desempenho econômico da Petrobras e os acionistas, principalmente os minoritários. "A gente sabe como uma CPI começa, mas não sabe como ela termina. A comissão vai impactar no curto prazo, mas pode revolucionar no médio e no longo prazos", diz.
Segundo Gualda, o pedido de CPI é reflexo da administração da estatal, essencialmente constituída por políticos que, para ele, não têm capacidade de gerir a empresa. "É a maior empresa do Brasil e o seu conselho máximo deve ser composto por técnicos capacitados, não por políticos", diz.
Para o economista, o maior benefício que pode ser atingido com a comissão é a revisão do marco regulatório da produção e distribuição de combustíveis fósseis no país. Para ele, o monopólio da Petrobras sobre o mercado prejudica o desenvolvimento do Brasil.







