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Se a campanha eleitoral é desdenhada por muitos eleitores pela superprodução e pela falta de espontaneidade dos candidatos, os debates são tidos como momentos em que os políticos deixam transparecer suas falhas e qualidades. Quem não lembra do debate acalorado entre Dilma Rousseff e Aécio Neves nas últimas eleições presidenciais, em que Dilma era criticada por sua dificuldade em concatenar ideias e Aécio por sua agressividade? Ou da expectativa pela “bala de prata” de Roberto Requião nas eleições para o governo do Paraná em 2014? Ou do crescimento de Gustavo Fruet nos últimos debates eleitorais de 2012, quando ainda era incerto se ele ou Luciano Ducci disputaria o segundo turno com Ratinho Junior?

Para o professor Sérgio Braga, do departamento de Ciências Políticas da UFPR, o debate tem potencial de definição de voto. “A maioria do eleitorado é indecisa. No primeiro turno, o excesso de informação pode confundir o eleitor, que demora mais a decidir seu voto. Quem acompanha a política já tem convicções mais formadas. Mas o debate tem tanto poder que todos os candidatos fazem questão de participar”, afirma. No segundo turno, segundo Braga, o debate ganha ainda mais importância.

A professora Luciana Panke, do departamento de Comunicação Social da UFPR, reconhecida como uma das 12 mulheres mais influentes da comunicação política da América Latina pelo Victory Awards 2016, concorda que os debates são fundamentais. Mas ressalta que devem ser espaços para a explanação de ideias concretas e defesa de planos de governo, e não apenas troca de acusações ou discursos genéricos. “É uma oportunidade para as candidaturas apresentarem o que pretendem fazer e para o eleitor ver quem dará as respostas mais consistentes”, explica. “O candidato que diz ‘precisamos melhorar educação’, sem dizer como, está falando apenas o óbvio. O eleitorado quer respostas”, aponta.

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Ambos concordam que as campanhas devem pensar nos eleitores desinteressados. Para Braga, ganha as eleições quem consegue cooptar o centro, porque o eleitor de direita ou esquerda mais radical já tem seu voto certo. No entanto, Panke chama atenção para o descrédito atual em relação ao voto. “Uma das missões desses candidatos em 2016 será fazer os cidadãos voltarem a acreditar na gestão pública. Votar no ‘menos pior’ é preocupante”, enfatiza.

Nesse contexto de polarização, a expectativa é de que os debates atendam a eleitores com menos convicções. No entanto, para Braga, é pouco provável que um candidato se eleja adotando a estratégia da polarização. “Ele tem que mostrar no debate que tem condições de governar a coletividade, e não apenas nichos da sociedade”, avalia.

Tendências

Além do debate, diversos outros fatores influenciam os eleitores. Segundo Braga, se a situação econômica geral do país é próspera, o eleitor vota em quem está no governo. Se há crise, o voto tende a ser oposicionista, inclusive nas eleições municipais. Também é um fator de definição de voto a percepção que eleitor tem sobre a própria qualidade de vida. Aí entram principalmente serviços do estado, como segurança. “Tudo é importante para formar a vontade do eleitor – debate, horário eleitoral, conversas. É um movimento em espiral”, avalia.

Panke lembra da importância do emocional na escolha do voto. Segundo ela, é uma escolha não pesquisada e sem qualidade técnica, baseada na simpatia ou antipatia em relação ao candidato. “Para o eleitor em geral, a formação de opiniões e paixões está relacionada a grupos com os quais se relaciona, redes sociais e família”, explica. O debate é uma forma de migrar desse tipo de voto para um voto mais racional, em que pesa a capacidade técnica que candidato consegue demonstrar. Ainda que o eleitor não assista o debate, a informação chega até ele pelos grupos que participa.

Braga, que pesquisa o uso da internet e mídias sociais nas eleições brasileiras, garante que as redes sociais apenas aumentam a importância dos debates. A tendência é que uma mídia complemente a outra. “O conteúdo do debate migra para a internet e as redes sociais dão prosseguimento à discussão”, explica. Para ele, o formato dos debates no Brasil está desgastado porque é muito rígido e não se compatibiliza com a dinâmica da internet.

Novo Formato

Gustavo Fruet e Rafael Greca são os primeiros a participar do formato de debate em dupla, promovido pela Gazeta do Povo, de segunda-feira (12)a quinta-feira (15 ), sempre às 10 horas. Os eventos serão transmitidos ao vivo por meio do Facebook e do site do jornal. O formato é inédito e sem amarras. Os políticos se encontrarão em duplas previamente sorteadas e cada candidato tem 45 minutos para falar sobre o tema de sua escolha, gerenciando seu tempo entre perguntas e respostas por meio de um relógio de xadrez. A mediação será mínima e cada candidato pode “roubar” a fala do outro três vezes.

A inspiração para esse formato de debate vem das eleições norte-americanas, em que os candidatos têm mais liberdade e o debate se dá como uma conversa – nem sempre muito amigável. Panke acredita que o formato face a face promove ataques maiores e a possibilidade de fortalecimento a partir dos pontos fracos alheios. “O conteúdo do debate demonstrará conhecimento ou não sobre a cidade”, prevê.

Braga vê esses elementos como uma tendência. “O que dificulta os debates é o excesso de candidatos e ausência de prévias nos partidos, que não realizam debates internos. Seriam mais interessantes debates em blocos de candidatos, com controle menos rígido de tempo e perguntas mais diretas”, diz. “As inovações devem tornar a política mais interessante para o eleitor – não suprimir o debate, mas valorizá-lo”, avalia.

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