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Debate na RedeTV!: clima sonolento. | Cacalos Garrastazu/ObritoNews
Debate na RedeTV!: clima sonolento.| Foto: Cacalos Garrastazu/ObritoNews

Análise

Sem religião, agenda volta ao passado

Carlos Eduardo Vicelli

Depois de polarizar a discussão em torno de questões religiosas, relacionadas especialmente à descriminalização do aborto, os dois candidatos à Presidência, Dilma Rousseff e José Serra, retomaram a agenda anterior no debate de ontem, na RedeTV!. Ou seja, a petista tentou vincular ao máximo o adversário ao governo Fernando Henrique. Já o tucano insistiu na comparação das biografias, ressaltando as ações durante sua passagem pelo governo de São Paulo. "Essa é a eleição mais fraca que já vi, e olhe que acompanho desde a década de 50. É um mais fraco do que o outro, com ambos patinando em torno de temas do passado. Não materializam o que – e como – vão fazer no futuro", analisa Octaciano Nogueira, cientista político da Universidade de Brasília (UnB). "Ao menos não tocaram nos temas religiosas, assunto da Idade Média e não do século 21."

Fabrício Tomio, integrante do núcleo de Ciências Políticas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), faz análise semelhante. Para o professor, a fuga de assuntos relacionados à liberação aborto no país está relacionada às últimas denúncias vinculadas pela imprensa – na edição de sábado passado o jornal Folha de S. Paulo publicou reportagem na qual uma ex-aluna da mulher de Serra, Mônica, relata que ela teria contado que havia cometido aborto. "Ele apresentou essa pauta, mas não a retomou. Talvez por receio dos últimos acontecimentos, das últimas informações", afirmou Tomio.

Ricardo Costa de Oliveira, também da UFPR, acrescenta outra questão que pôde ser vista no embate de ontem: o aparecimento do personagem Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, ex-diretor de engenharia da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A) na discussão. Preto é acusado de ter fugido com R$ 4 milhões da campanha tucana. Neste fim de semana foi revelado que a filha de Preto, Tatiana Arana Souza Cremonini, foi nomeada por Serra como assistente técnica de gabinete no governo de São Paulo. "O Serra defendia um comportamento ético, mas não respondeu, preferindo ficar na defensiva", disse.

Troca de farpas

Veja algumas passagens do debate na Rede TV!:

Dilma Rousseff

"São Paulo tem 300 mil viciados em drogas. Ele [Serra] diz que tem 300 vagas. Vai levar um século para o candidato Serra tratar os drogados de São Paulo."

Sobre a política de tratamento de dependentes químicos no governo paulista.

"Ele [Serra] tem a mania de interromper obras dos seus antecessores, ele fez isso com o [Geraldo] Alckmin."

Sobre a paralisação de obras tocadas pelo governo paulista iniciadas por Geraldo Alckmin, antecessor de Serra.

"O caso da Erenice nós investigamos. Ela saiu do governo. A Polícia Federal abriu inquérito, 16 pessoas foram interrogadas."

Sobre a denúncia de tráfico de influência que envolveu a ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra.

José Serra

"Você vê o mundo com os óculos do PT. Tudo azul, tudo arrumadinho. As fronteiras guardadinhas. Que não estão."

Sobre o controle de entrada de drogas no país pelas fronteiras.

"Disseram que alguém tinha recebido contribuição para minha campanha e não tinha entregue. Eu sou a vítima. Eu disse que eu não sabia disso."

Sobre a denúncia que um ex-diretor de uma autarquia paulista teria desviado recursos da campanha de Serra.

"Paulo Preto é um apelido preconceituoso. Porque ele é descendente de africano. Se fosse japonês iam chamar ele de Paulo Amarelo?"

Sobre porque teria negado conhecer o ex-diretor acusado de desviar recursos da campanha de Serra.

A duas semanas da eleição, as privatizações e as comparações entre os governos Fernando Henrique Cardoso e Lula voltaram à tona e substituíram temas ético-religiosos como o aborto e a homofobia no debate entre presidenciáveis de ontem à noite, na RedeTV!. Dilma Rousseff (PT) retomou a tese de que José Serra (PSDB) pode privatizar a Petrobras e o pré-sal. O tucano contra-atacou e disse que é a favor da "reestatização" de órgãos como a própria Petrobras, evitando as nomeações político-partidárias que, segundo ele, dominaram a gestão petista.

Foi o segundo encontro televisivo entre os dois após o primeiro turno. Como era previsto, permaneceu o tom áspero e truncado do debate do último dia 10, na Band TV. Logo na abertura ambos foram instados a falar sobre qualidades e defeitos do rival, mas fugiram da proposta, preferindo falar sobre eles próprios. O tema "escolas técnicas" tomou boa parte do primeiro bloco.

Apesar de o debate ter um formato que privilegiou o confronto direto, os dois se evitaram durante quase um bloco e meio, utilizando a estratégia de não responder ao que o outro perguntava. De cara, Dilma disse que espera ser eleita "graças a Deus". Já Serra abriu as questões perguntando sobre investimentos em educação no governo Lula com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador. Dilma evitou e logo puxou o tema das privatizações.

Ela levantou uma suposta manobra da administração Serra em São Paulo para que uma concessão de exploração de gás natural do estado ficasse com uma empresa privada. Segundo a petista, a Petrobras ficou em primeiro lugar em uma concorrência pelos serviços da Gas Brasiliano, empresa que atende 375 municípios do Noroeste paulista, mas estaria sendo preterida por um grupo privado japonês. "Mesmo dando maior preço, por que é que a agência reguladora e a Secretaria de Energia (ór­­gãos do estado de São Paulo) não são favoráveis (ao negócio)?"

Serra hesitou, mas disse que respeitou a decisão da agência, "ao contrário do que o PT costuma fazer com as agências reguladoras (nacionais)". O tucano também disse que a discussão sobre privatizações não faz sentido. "Não há empresas para serem privatizadas."

Ao longo do encontro, Dilma usou números para comparar os modelos do PSDB e do PT na Presidência da República. A candidata também criticou várias vezes a administração tucana em São Paulo – especialmente na área de educação e segurança pública. Ela disse trabalhar com a meta de "livrar o estado" do grupo criminoso PCC (Primeiro Comando da Capital), mas frisou que não tem nada contra o povo paulista. Serra ironizou o interesse da opositora na gestão do estado.

O debate teve poucos confrontos técnicos de propostas. Na área de segurança, Dilma defendeu a utilização dos veículos aéreos não-tripulados no monitoramento das fronteiras, enquanto Serra disse que as aeronaves compradas no governo Lula sequer estão funcionando. Ele também voltou a associar o problema do tráfico de drogas no país a uma suposta leniência nas relações com a Bolívia.

Nas considerações finais, o tucano tentou passar otimismo e voltou a usar o bordão de uma campanha de "coração leve". Já Dilma disse que luta contra o ódio dos rivais e que fará uma administração voltada à defesa das "pessoas humanas". Ainda que sutil, foi a única alusão às cobranças de líderes religiosos, especialmente contra a proposta de legalização do aborto.

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