
Com 9 anos, Mabili Borgo dos Santos é uma menina contida um contrassenso para a idade que tem. Por recomendação médica, não pode gargalhar. Falta-lhe ar. Feliz como toda criança, Mabili apenas sorri. A garota, que mora em Imbaú, no interior do Paraná, tem bronquite e asma. No início de janeiro, entrou para a fila de espera para uma consulta com pneumologista especialista em alergia para descobrir o que estimula as duas doenças. Desde então, já foi internada quatro vezes para receber oxigênio e acalmar as crises respiratórias. A demora do Sistema Único de Saúde (SUS) em atender Mabili é um retrato do funil para consultas e exames especializados nos Campos Gerais.
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Enquanto ela não é atendida por um especialista, Mabili segue uma vida de "nãos". Brincadeiras com cócegas? "Não pode", diz a mãe, Rosângela Aparecida Borgo. "Ela [a médica] falou que não posso correr nem dar risada. Não posso usar esmalte e não posso usar maquiagem por causa do cheiro", explica a menina.
"Eu corria na rua", conta Mabili sobre a vida de criança antes das crises de asma. E se correr? "Eu não consigo respirar direito. Fico ansiosa e dói o peito", responde. A mãe completa: quando a menina faz um esforço respiratório entra em crise e precisa ser internada e receber oxigênio. É bom, Mábili? "Sim, passa a dor."
Desde 2011, quando começou o tratamento, a menina sempre foi encaminhada para clínicos-gerais ou pneumologistas durante as crises respiratórias. Até hoje não conseguiu que um médico especialista em alergia que avalie as causas externas que influenciam na doença e aumentam suas dificuldades respiratórias. A mãe cogita fazer a consulta particular em Ponta Grossa. O custo é de R$ 240, valor alto para a família. O pai dela, Sidnei, trabalha em uma empresa de manutenção de rodovias. "O problema é que não é só a consulta, tem os exames também."
Mãos atadas
A secretária de Saúde de Imbaú, Silvana Correa Batista, diz que pouco pode fazer pela menina. O município é um dos três dos Campos Gerais que não têm qualquer leito cadastrado no SUS. Isso significa que todos os procedimentos médicos que não sejam consultas simples precisam ser encaminhados para outras cidades principalmente Ponta Grossa, a 100 quilômetros de distância e uma hora e meia de viagem. "Eu gasto de 60% a 70% do orçamento da saúde em transporte [de pacientes]. Tenho um ônibus e seis carros para levar pessoas [para consultas e exames]. Mesmo que tivesse 20 carros, não supriria a demanda", desabafa.
Maria Urnau Delinski, coordenadora da Pastoral da Criança na região de Ponta Grossa, diz que ouve muita reclamação das pessoas com relação à demora para o atendimento de saúde. "Vários municípios não têm estrutura e mandam todo mundo para cá. Aí, demora-se meses para uma consulta. A construção de novo hospital seria uma maravilha", afirma. Silvana confirma: "Tem especialidades que, para sair uma consulta ou exame, leva de 6 a 8 meses . Eu não consigo uma consulta de oncologia [câncer] em menos de 15 dias. Não tem o que a gente faça".
Região rica
A região dos Campos Gerais é a 4.ª mais rica do Paraná. "É uma região que[pela proximidade] está se beneficiando da aglutinação das indústrias na região metropolitana de Curitiba", explica Julio Takeshi Suzuki Júnior, diretor do Centro de Pesquisa do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes).
Mas nem toda essa força econômica garante que a população tenha um atendimento em saúde melhor. A professora Augusta Pelinski Raiher, especialista em Desenvolvimento Regional e Agronegócio da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), acredita que parte das características dos Campos Gerais deve-se à concentração econômica em Ponta Grossa. "Para que se tenha uma diminuição das desigualdades, é necessário que aspectos específicos de cada município sejam trabalhados. Nesse sentido, um dos grandes desafios está exatamente em reverter a falta de competitividade de alguns municípios nas suas principais atividades."
Para Osmar Chinato, prefeito de Carambeí e presidente da Associação dos Municípios da Região dos Campos Gerais (AMCG), são necessários investimentos para capacitar os moradores das pequenas cidades e dar estrutura para investimentos nesses locais. Desse modo, os pequenos municípios poderão se desenvolver e, assim, arrecadar mais com impostos para investir na saúde. A menina Mabili agradeceria. E finalmente poderia gargalhar.
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