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Manifestações de rua

“Eu sou de esquerda; o governo é de direita”

Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em geografia humana

  • Yuri Al’Hanati
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Convidado para o Congresso da Primavera, evento realizado na última semana em Curitiba pela seccional paranaense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PR), o sociólogo Demétrio Magnoli diz que, embora as reivindicações dos movimentos das ruas tenham sido vagas, foram extremamente claras. “Ao levantarem o problema de direitos universais e de serviços públicos universais, como saúde e educação, os protestos perfuram a lógica política do atual governo”, diz. Considerado uma voz de direita entre os intelectuais brasileiros, Magnoli, nesta entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, não poupa críticas à atual gestão federal e à crise de representatividade.

Já é possível tirar uma conclusão sobre os protestos de rua e seu lugar na história recente?

Já dá para ter conclusões iniciais. A primeira coisa é separar as jornadas de junho do que veio depois. As jornadas de junho foram manifestações multitudinárias [que reuniram multidões]. Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas e levantaram temas que dizem respeito a direitos universais, como saúde e educação. O que veio depois foram movimentos de minoria, que é uma coisa completamente diferente. São reivindicações particulares de movimentos sociais, essencialmente governistas, e que operam dentro da lógica política do atual governo. A novidade de junho foram essas manifestações que, ao levantarem o problema de direitos universais e de serviços públicos universais, perfuram a lógica política do atual governo. As reivindicações foram justamente por saúde e educação, que são coisas que foram relegadas ao longo desses dez anos de suposto progresso e avanço do Brasil. É nesse sentido que as manifestações criam um novo cenário político, onde mesmo que tenham adormecido, deixaram mensagens que continuam a repercutir e que vão repercutir nas eleições de 2014.

É possível que as manifestações renasçam?

É difícil dizer isso, porque as manifestações de junho foram interrompidas por ações de vandalismo que repugnam as pessoas. Os grupos de vândalos que hoje atuam nas ruas basicamente estão mandando a mensagem de que rua é lugar de vândalo. Eles contaminam todas as manifestações com a depredação, a violência. A conclusão que muitas pessoas começam a tirar – erroneamente, na minha opinião, mas passível de ser compreendida – é que se manifestar é se misturar com vândalos. Então acho difícil dar uma resposta clara neste momento. É preciso saber se as pessoas comuns, em suas reivindicações democráticas, vão conseguir retomar o lugar que é delas, que é o lugar de se manifestar por direitos, ou se esse lugar vai ser sequestrado de uma maneira mais definitiva por grupos de vândalos e por movimentos sociais organizados que muitas vezes flertam com os vândalos.

Muitas propostas de reforma política estão surgindo para tentar superar a crise de representação. Como o senhor as vê?

Só existe uma proposta de reforma política com começo, meio e fim, que é a do governo. O resto são ideias soltas. A do governo vai na direção oposta à mensagem das ruas. A mensagem das ruas é que a elite política se cristalizou como uma casta hostil ao interesse público, e a proposta de reforma política do governo é cristalizar ainda mais essa elite. Fazem isso dando todo poder aos partidos, com propostas de listas partidárias fechadas que não permitem ao povo votar em candidatos nominais, apenas em partidos. E há também a proposta de financiamento público exclusivo de campanha, o que significa verter dinheiro do povo para toda a elite política que o povo odeia. Querem me obrigar a financiar candidatos em que eu nunca votaria. Essas propostas distorcem ainda mais o sentido da representação política.

Em dez anos de PT no governo, houve uma confusão das relações de direita e esquerda do Brasil?

Eu acho, e já escrevi sobre isso, que o governo é conservador porque se nega a fazer uma série de reformas que tornariam a representação mais efetiva e mais transparente. É conservador porque estimula o capitalismo de Estado. É conservador, e mais do que isso, é restauracionista, porque quer restaurar o corporativismo varguista. Isso confunde um pouco as pessoas. Elas tendem a achar que o governo é de esquerda, mas ele tem muitas características de direita. A única característica de esquerda que ele conserva é uma atração incontrolável por ditaduras de esquerda. Mas apenas isso não faz alguém ser de esquerda. Eu sou de esquerda; o governo é de direita.

A “peemedebização” do governo contribui para essa percepção?

A “peemedebização” é o sintoma mais claro da formação de uma ampla coalizão da elite política em torno do PT, que é o escudo protetor dessa elite. É um fenômeno interessantíssimo do ponto de vista histórico e sociológico, porque o PT é um partido que surge contra a ordem, mas se transforma em um partido da ordem quando chega ao poder. E hoje se converte em um partido da velha ordem.

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