Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Comportamento

Factóides, uma marca da trajetória de Requião

Governador é especialista em gerar notícias de impacto

Detalhe da garrafa de whisky que foi vendida pelo equivalente a R$ 110 mil | Reprodução
Detalhe da garrafa de whisky que foi vendida pelo equivalente a R$ 110 mil (Foto: Reprodução)

Boa oratória. Estilo imponente. Postura firme. Olhar contundente. Essas são algumas das características dos maiores geradores de factóides – fatos, verdadeiros ou não, divulgados com sensacionalismo para impressionar ou influenciar a opinião pública. No Paraná, o governador Roberto Requião (PMDB) é o personagem político que mais se enquadra nesse figurino.

O último fato repetido à exaustão pelo governador e que teve grande repercussão, principalmente na mídia, foram as denúncias de supostas irregularidades nas aposentadorias de membros do Ministério Público Estadual (MP). Requião denunciou que promotores e procuradores de Justiça se aposentaram como membros do poder público contando tempo de serviço da época em que eram advogados e estagiários.

A notícia não é uma inverdade. Mas, de acordo com os membros do MP, as aposentadorias estão dentro da legalidade. A ira requianista começou quando o MP entrou com ação na Justiça para acabar com o nepotismo praticado pelo governador, que emprega irmãos e outros parentes no Executivo. Atacar a instituição que o está fiscalizando seria a forma encontrada por Requião para tirar a credibilidade do órgão e dizer que o MP também comete imoralidades.

O governador tem investido contra o MP há um mês. Às terças-feiras, durante as reuniões semanais com o secretariado, Requião critica o MP, chamando procuradores e promotores de "marajás da República", dentre outros nomes. O governador chegou a dizer que os verdadeiros nepotistas eram os membros do MP, que têm privilégios na carreira. Dessa maneira, Requião levou parte da população a também se voltar contra o Ministério Público.

Antes da briga com o MP, porém, o governador já havia produzido uma série de outros factóides, como o discurso contra o pedágio e os transgênicos. Requião, durante a campanha eleitoral de 2002, prometeu que o pedágio teria suas tarifas reduzidas ou acabaria. Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Pelo contrário, uma nova praça de pedágio começou a funcionar durante sua administração, na Lapa.

Agora, o governador inclusive pretende concorrer à exploração, por meio da Copel, de estradas pedagiadas federais, que serão leiloadas pelo governo Lula no próximo dia 9. A alegação é de que uma empresa pública no ramo do pedágio cobraria tarifas muito baratas. No meio político, porém, especula-se que seja mais um factóide. A Copel não teria capacidade para concorrer com empresas especializadas no ramo. E, mesmo que vencesse o leilão, haveria uma avalanche de ações judiciais contra a participação da Copel. Em qualquer hipótese, porém, Requião continuaria a posar de defensor dos interesses públicos.

Já quanto aos transgênicos, Requião queria que o Paraná fosse uma área livre dos organismos geneticamente modificados (OGM). Ele chegou a sancionar lei estadual proibindo o cultivo, manipulação, importação, industrialização e comércio de transgênicos no estado. O problema é que esse é um tema cuja responsabilidade de normatização é do Congresso Nacional. E a lei paranaense foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Recentemente, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) posicionou-se contra leis estaduais para regulamentar transgênicos. De acordo com Lula, é a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTN-Bio) que deve definir critérios para o uso de OGMs. Mas, mesmo assim, Requião ganhou pontos políticos: conta com a simpatia de ambientalistas.

Requião também lançou factóides na área de energia. Disse que a Usina Elétrica a Gás de Araucária (UEG), construída na gestão Jaime Lerner, ia explodir se entrasse em operação. Após anos de ociosidade da usina, disputas judiciais e discursos, o governo comprou as ações da UEG que pertenciam à norte-americana El Paso, por cerca de R$ 430 milhões. Hoje a usina opera normalmente.

O governador ainda disse que uma fissura na barragem da Hidrelétrica de Salto Caxias obrigaria a Copel a esvaziar o reservatório da usina. Especialistas em engenharia hidráulica desmentiram o governador: havia monitoramento constante na barragem e a ela não corria riscos.

A própria Gazeta do Povo chegou a ser alvo de um factóide de Requião, que espalhou outdoors por Curitiba dizendo que o jornal mentia. O motivo foi uma reportagem, no verão de 2006, mostrando que o Paraná tinha o litoral mais poluído do que o de estados vizinhos. Os dados informados na reportagem eram do próprio Instituto Ambiental do Paraná (IAP), ligado ao governo.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.