"Instituto de Propaganda Estatal Ampliada." Para muitos críticos da atual gestão do Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, esse seria um nome mais condizente com o perfil atual do órgão. Isso porque os estudos publicados desde que Márcio Pochmann assumiu a presidência da instituição, em agosto de 2007, estariam sendo feitos com a intenção de defender as ações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Um dos levantamentos recentes que mais recebeu críticas foi o que justificou que a produtividade do setor público brasileiro é maior do que a do setor privado. Em 19 de agosto, o Ipea publicou o comunicado "Produtividade na Administração Pública Brasileira: Trajetória Recente". Para tanto, utilizou-se o conceito de valor agregado em relação à força de trabalho ocupada na máquina estatal.
"Ao contrário dos pressupostos neoliberais, que ainda se sustentam na anacrônica defesa da ineficiência do Estado, constata-se o crescimento da produtividade no setor público brasileiro", escreveu Pochmann em um artigo. Meses antes, outro levantamento do Ipea apontava que o número de funcionários públicos brasileiros, em 2005, correspondia a 10,7% do total de trabalhadores. O número seria bem menor do que na Dinamarca (30,9%), Suécia (24,9%) e França (14,8%).
Um pesquisador da USP, que prefere manter o anonimato para não se indispor com colegas, diz que esses estudos tentam provar que o Brasil precisa de mais funcionários, pois outros países desenvolvidos têm mais. "Acho que esse não é um bom argumento porque despreza a questão da produtividade. Será que dobrando o número de funcionários no Brasil vamos ter o atendimento que têm os suecos? Será que dobrando o contingente de policiais vamos reduzir a violência pela metade?", questiona.
O economista José Roberto Afonso, que faz assessoria econômica para o senador Tasso Jereissatti (PSDB-CE), publicou um texto afirmando que esse comunicado "não observa o mínimo critério econômico, nem o bom senso mais elementar, e trabalhos como esse podem prejudicar a reputação dessa instituição construída ao longo de mais de quatro décadas de atuação em pesquisas e análises econômicas". Ele cita como exemplo o fato de os inativos da administração pública entrarem na conta. "Ou seja, quanto maior o déficit do regime próprio de previdência dos servidores, maior é o valor adicionado pelas administrações públicas e, assim, maior sua produtividade."
Justificando
Recentemente, o Ipea divulgou outros comunicados que parecem querer justificar as ações do governo federal. Na terça-feira, veio a público a nota técnica "Impactos da Redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de Automóveis". A conclusão do trabalho é de que o corte no tributo foi benéfico para a economia brasileira, pois foi responsável pela manutenção de 50 mil a 60 mil postos de trabalhos diretos e indiretos no período de janeiro a junho deste ano.
Uma semana antes, em 26 de agosto, o Ipea publicou o documento "O que explica a queda recente da receita tributária federal?". A redução na arrecadação no primeiro semestre deste ano teria sido um dos motivos que levaram o Planalto a substituir a secretária da Receita Federal, Lina Vieira. Segundo o Ipea, a queda na arrecadação se deve somente à turbulência econômica.
Para efeitos de comparação, a maioria dos comunicados que o Ipea divulgava no fim do período do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso destacava as mazelas pela qual o país passava. "Pobreza volta a crescer no segundo mandato de FHC" (2000) e "Abertura não fez juros caírem" (2002) são dois exemplos de reportagens feitas com base em estudos do Ipea que iam na contramão do que o governo pregava.



