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São Francisco

Ministro vai a Cabrobó falar com bispo em greve de fome

O ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, está a caminho do município de Cabrobó para conversar com o bispo dom Luiz Flávio Cappio, em greve de fome desde o dia 26 de setembro em protesto contra as obras de transposição das águas do Rio São Francisco. O ministro irá até Petrolina em um avião da Força Aérea Brasileira e depois seguirá de carro até Cabrobó, no sertão pernambucano.

Durante o encontro em Cabrobó, o ministro deve fazer um convite ao bispo para se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto. Wagner deve voltar para Brasília ainda nesta quinta-feira. O bispo é da cidade de Barra, na Bahia, e escolheu Cabrobó para fazer o protesto contra o projeto do governo.

O ministro deverá também entregar ao bispo uma carta do presidente Lula, garantindo que haverá um amplo debate sobre o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco.

- O governo não está dizendo que absorve ou que vai fazer exatamente o que os interlocutores querem. O governo está se colocando aberto a um diálogo, a um debate público, aberto. Não se trata inclusive de um debate exclusivo com as pessoas em torno do bispo Luiz, para, insisto, dar tranqüilidade a um projeto que, na nossa convicção, foi bastante estudado - afirmou Wagner.

Já o bispo disse que só dará fim ao jejum quanto tiver um documento assinado pelo presidente Lula.

- Enquanto isso não chegar as minhas mãos e houver entre nós uma discussão, eu permaneço em greve - declarou.

Sobre o teor do documento, o bispo espera:

- A disposição de suspender o projeto de transposição e alternativas para a convivência com o semi-árido. No papel, assinado - ressaltou.

Quem verbalizou na quarta-feira a preocupação do governo com mais essa crise foi o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Félix:

- O que não pode ocorrer é o homem morrer - disse o militar durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).

Segundo o governo, a obra vai beneficiar 12 milhões de pessoas, levando água para áreas de seca em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Os críticos do projeto alegam que, nas épocas em que não chove, a transposição poderia provocar danos ambientais.

Na quarta-feira, em São Paulo, o presidente Lula destacou o caráter social do projeto e disse que acredita em uma solução para o impasse com o bispo.

- Estou tranqüilo com a justeza da obra, estou consciente do papel do bispo, estou consciente do papel do Rio São Francisco, e como eu sou um cristão que acredita em Deus, eu acho que nós encontraremos uma boa solução", disse Lula.

Na quarta, dom Luiz começou a sentir falta de ar e já apresenta lapsos de memória, mas se recusou a seguir recomendação médica para reduzir o ritmo de atividades, o que evitaria um desgaste físico maior. Ele celebrou missa, cumprimentou populares e ainda deixou o seu retiro no interior da capelinha de São Sebastião para se reunir com índios que cantavam em sua homenagem. Quatro pequenos produtores rurais aderiram ao movimento e também estão em greve de fome contra a transposição das águas do Rio São Francisco.

- Se o meu movimento for isolado, ele não terá força. Precisa mobilizar a população - afirmou o religioso, que tem dito aos que o procuram que só sai do sítio onde iniciou o seu jejum "com procissão ou no caixão".

CNBB DIVIDIDA - A iniciativa de Dom Luiz dividiu a Igreja. O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) chegou a pedir o adiamento da obra. Mas os bispos de quatro estados do Nordeste - Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba - criticaram a greve de fome.

- Todos os bispos dos quatro estados firmaram uma posição a favor da revitalização do São Francisco e da transposição, quer dizer, questões maiores ligadas para além da revitalização - aponta Dom Aldo Pagotto, arcebispo da Paraíba.

O Vaticano também já enviou uma carta ao bispo de Barra com um apelo para que ele suspenda a greve de fome. Segundo fontes da CNBB, na Santa Sé o protesto de dom Luiz já é motivo de constrangimento. Mas o recado do Vaticano para Lula foi de que a Igreja não vai interferir em questões próprias do governo brasileiro.

Representantes da sociedade civil também são contra o protesto.

- Há mecanismos jurídicos, ações, ação civil pública, outros mecanismos conforme o caso concreto, que poderiam ser utilizados para a solução de hipóteses como essa", comenta Fabio Canton Filho, coordenador da comissão de direitos humanos da OAB-SP.

-Em uma situação como essa, incomoda uma ação extrema, um posicionamento extremo como esse até pelo poder simbólico que ele pode alcançar no resto do país e gera uma preocupação acerca do futuro - observa Alípio Casali, filósofo da PUC-SP.

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