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“Já se superou a ingenuidade de que a política pode ser dividida entre os éticos e os não éticos. Não existe um partido dos éticos (...). Ao montar a coalizão, você reúne pessoas (...) com as quais não compactua.” - Cláudio Gonçalves Couto, pós-doutor pela Universidade de Columbia (EUA) e professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas-SP | Cassia Xavier/Anpocs
“Já se superou a ingenuidade de que a política pode ser dividida entre os éticos e os não éticos. Não existe um partido dos éticos (...). Ao montar a coalizão, você reúne pessoas (...) com as quais não compactua.” - Cláudio Gonçalves Couto, pós-doutor pela Universidade de Columbia (EUA) e professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas-SP| Foto: Cassia Xavier/Anpocs

Em 1.° de janeiro, Luiz Inácio Lula da Silva vai passar a faixa presidencial para sua sucessora, a também petista Dilma Rousseff. Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, o cientista político Cláudio Gonçalves Couto, pós-doutor pela Universidade de Columbia (EUA) e professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas-SP, avalia que a história do país será contada em antes e depois de Lula. E que o grande legado do governo petista é a redução da desigualdade social no país. Ele ainda prevê que o governo de Dilma, assim como ocorreu com Lula e com FHC, terá escândalos devido ao sistema de presidencialismo de coalizão do Brasil.

Em 2002, quando Lula foi eleito, os jornais noticiaram que o 1.º líder da esquerda chegava ao poder no Brasil. Oito anos depois, o senhor acredita que Lula ainda é um líder de esquerda?

Preponderantemente sim, se considerarmos que a grande mudança que houve durante esses oito anos de mandato foi a redução significativa da desigualdade econômica. Se você avaliar o índice que mede a desigualdade, o Gini, nos últimos 20 anos houve dois momentos fundamentais de declínio da desigualdade. O primeiro foi o Plano Real. Com o fim da inflação, automaticamente há uma melhora dos setores mais pobres, que não tinham mecanismos para fugir da inflação. Depois, o segundo momento foi durante o governo Lula. Não precisando mais controlar a inflação, ele implantou mecanismos de redistribuição de renda por aumento do salário mínimo e transferência direta de renda. Portanto, se o que define a esquerda é a luta pela igualdade, podemos dizer que esse foi de fato um governo de esquerda.

Qual será o grande legado, a grande marca do governo Lula?

O grande legado de Lula é sem dúvida a redução da desigualdade social. Isso associado à retomada do crescimento econômico, com redução do nível de desemprego. Fora isso, talvez a consolidação de um regime de política pública. De um lado, essa política se baseia na estabilidade econômica, em uma gestão ortodoxa da economia, seja no que se refere à política monetária e fiscal, que veio do governo FHC e continua no governo Lula. E, de outro lado, estão as políticas públicas da área social, consolidando a transferência de renda direta àpopulação.

A redução da desigualdade se reflete na mudança das classes mais baixas para níveis sociais mais altos. Isso se deve a políticas implantadas no governo Lula ou faz parte de um processo que vem sendo construído desde a implantação do Plano Real?

Isso se deve às duas coisas. Nós podemos até voltar mais no tempo. Há políticas públicas que começam com a Constituição de 1988, que consolida o Sistema Único de Saúde, por exemplo. Ela cria as bases para que uma série de políticas sociais fossem implantadas. Agora, o Plano Real foi crucial nesse sentido e o governo FHC foi importante porque implantou muitas das políticas que estavam previstas na Constituição. Regulamentou várias políticas sociais que estavam previstas, inicia a regulamentação na área de assistência social e criou as bases da estabilização econômica. Então, é importante dar historicamente créditos ao governo anterior por ter lançado as bases. Mas o que o governo Lula fez foi aprofundar muito essas políticas. Antes, cerca de 5 milhões de famílias eram atendidas pelo Bolsa Escola, e outros programas como Vale Gás e o programa de erradicação do trabalho infantil. Ao consolidar eses programas em um só, o Bolsa Família, foi simplificado o processo de cadastramento das famílias, expandido muito o valor do benefício e o número de beneficiários, que passa de 12 milhões de famílias. Esse é um mérito deste governo, não de ter inventado todas as políticas, mas aprimorá-las. Isso também vale, na educação, para o Fundeb e o Prouni [programas voltados para o ensino básico e superior, respectivamente].

A história do Brasil ficará marcada pelo antes e o depois de Lula?

Sim. Em primeiro lugar por promover uma circulação das elites. O próprio fato de um ex-operário chegar ao poder, em um país tão elitizado como o nosso, é uma mudança significativa. As políticas de redução da desigualdade são uma ruptura que dificilmente serão revertidas. Os futuros governos, de quais partidos forem, terão de seguir nessa linha. Assim como aconteceu com as políticas de estabilização da economia implantadas no governo FHC, que foram mantidas por Lula. E, finalmente, a vitória do PT completou um ciclo de alternância no poder. Já esteve no poder a direita, o centro e agora a esquerda. Para um regime democrático isso é muito importante porque mostra que não existe mais nenhum setor ideológico que é inaceitável. Isso não é uma obra deste governo, mas de um processo histórico que tende a ficar.

Para muitos, Lula é antidemocrático; arregimenta apoios para eliminar a oposição. O senhor concorda?

Acho que há um grande exagero na caracterização do Lula como um líder antidemocrático. Creio que já havia um exagero antes mesmo da posse dele, quando se falava em populismo. A meu ver, o Lula é um tipo de líder totalmente não populista. Porque um líder populista atua por cima das instituições, conseguindo implantar suas medidas por cima de tudo e de todos. O Lula não é maior que o PT. Ele é a principal figura, mas não é dono do partido, como a meu ver acontece na Venezuela com Hugo Chávez. No sistema presidencialista, o presidente é ao mesmo tempo chefe de governo e chefe de estado. Ser chefe de governo significa ter um partido e coordenar uma coalizão. Por isso ele toma partido, entra nas disputas, se posiciona e é criticado por isso. Resumindo, eu diria que o presidente do Brasil não é a rainha da Inglaterra. Não é tratado dessa forma [solene] pela oposição, nem tem motivos para se comportar dessa maneira. Uma coisa diferente é o tom que o Lula adota; às vezes ele se excede. Ao longo dos anos, vemos vários momentos de destempero verbal, bobagens que foram ditas por ele.

A que se deve a alta popularidade de Lula?

Essa aprovação pode se dividir em duas frentes. Uma é a popularidade do governo e outra é a popularidade pessoal do presidente. Sistematicamente, a popularidade do presidente tem sido mais elevada que a do governo. O governo federal tende a ser avaliado pela situação econômica do país. E, como a situação da economia vai bem, o governo está bem avaliado. No caso do presidente, estamos falando de uma pessoa dotada de grande carisma, com grande capacidade de comunicação com a população, que fala a linguagem das classes mais baixas e que acaba não agradando à classe média mais escolarizada. Mas o carisma por si só não se sustentaria se não fossem os bons resultados da economia.

Os altos índices de popularidade do presidente Lula deixam uma porta aberta para ele voltar em 2014?

Não tenho dúvida. Não consigo ver o Lula fora da política. Ele não me parecer caber naquele perfil do presidente de pijama. Se a Dilma realmente topar sair depois de quatro anos, acho muito difícil que o Lula não queira ser candidato mais uma vez.

Como o Lula conseguiu manter a popularidade, apesar dos escândalos de corrupção no governo, como o mensalão?

Em parte pelo próprio sucesso do governo nas outras frentes. Em segundo lugar, tem a ver com o carisma do presidente. E um terceiro ponto é que todos os escândalos, apesar de atingirem pessoas próximas, nunca foram ligados diretamente ao presidente. Ou seja, o escândalo queima o "fusível" e não queima o principal, que é o presidente.

Em um artigo, o senhor disse que hoje o país vive o período da política pós-ética, diante de tantos escândalos. A ética não será mais recuperada?

Não é que ela não será mais recuperada. Mas já se superou a ingenuidade de que a política pode ser dividida entre os éticos e os não éticos. Hoje o cenário é mais complexo. Eu diria que não existe um partido dos éticos, como o PT tentou se posicionar no passado e como muitos partidos da oposição fazem na época da eleição, sejam eles o PSol, o PSDB, por exemplo. Os partidos são muito heterogêneos e, no Brasil, não se governa sem formar coalizão de legendas. Nenhum partido sozinho tem maioria no Congresso e sem maioria é difícil governar. E, ao montar a coalizão, você reúne pessoas de vários partidos. Isso implica em distribuição de cargos e verbas e incorporação no governo de figuras com as quais você não compactua. Isso [a ocorrência de escândalos] aconteceu no governo Lula, no de FHC. E vai acontecer nos próximos.

Hoje o Brasil tem um grande prestígio internacional. O senhor acredita que isso se deve ao presidente Lula?

Em parte. O Lula é uma novidade no cenário internacional, em razão da história pessoal dele. Uma pessoa que saiu da extrema pobreza para ocupar a Presidência. Isso catapultou a figura do Lula no cenário internacional. Mas,se fosse só isso, então poderíamos questionar se o Evo Morales, da Bolívia, também não deveria ser popular internacionalmente. Na verdade, os trunfos do Lula são em parte dele e em parte de ser o presidente do Brasil, um país com peso. Existe ainda o fato de ele, ao chegar à Presidência, promover uma série de mudanças sociais sem romper com a estabilidade política e econômica. Isso atraiu a atenção internacional. Além disso, também houve uma mudança de estratégia na política externa, que antes sempre foi de muita discrição. Essa gestão tirou o Itamaraty do centro das decisões internacionais, levando-as para a própria Presidência. Externa­­mente, o país passou a agir mais agressivamente, com erros – como no caso do Ir㠖, mas com acertos, com a aproximação com os países do Hemisfério Sul e da África.

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